sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Escuridão e Luz

No gabinete vejo pessoas constantemente em luta com os seus monstros internos, com traumas, medos, inseguranças, vergonhas.

Vejo pessoas em lutas diárias para definirem em si uma melhor versão de si mesmos, um estado mais tranquilo ou pacífico. Lutas para serem eles mesmos e ganharem um eu forte na sua intimidade, ganharem uma imagem de si aprazível. Vejo-as críticas de si e do mundo, perdidas num cinismo que as amarga, numa viagem sem janelas para o mundo.


Vejo a necessidade de crenças emprestadas, de um esperança impingida, de um conceito de felicidade ou de amor como se  estes pudessem ser consumíveis. Vejo-os pedintes de afecto, de atenção, de cuidados, incapazes dos esforços necessários para mudarem o tabuleiro a seu favor por falta de forças ou verdadeira motivação.




Vejo um mundo cheio de pessoas que se julgam perdidas, deprimidas de afectos, sós, atafulhadas de camadas protectoras que as inibem de sentir. Vejo raciocínios que camuflam, intelectualidades que disfarçam, jogos de escondidas que inibem de encontros com a essência. Vejo pessoas presas em caixas, de olhares postos nos outros como referências cruciais, pessoas que se tornaram reflexos de si e não as suas verdadeiras entidades. Vejo os que chamo bússolas sem norte ou barcos sem âncora.

Vejo retratos de um mundo novo, cheios de questões sobre o que está a mudar e como sobreviver num mundo que mudou depressa. Vejo máquinas respondentes e andantes, reactivas aos estímulos, sem uma verdadeira interacção. Vejo automatismos linguísticos vazios da reflexão necessária. Vejo pessoas que são capazes de gritar os seus sentires disfarçados nas frases dos outros no mundo digital, escondidos na distância de teclados. Vejo-os mudos no seu mundo. 

Vejo pessoas exaustas, saturadas, com sensações de ratos em ratoeiras. Vejo olhos vazios, mãos gastas, rostos cravados de rugas expressivas. Vejo fantoches e marionetas, vejo desespero e sofrimento excruciante, feridas em dor lancinante.

Vejo viagens não pensadas, não planeadas, sem destino, ou apenas com destino. Vejo pessoas crianças, sem hipótese de crescer, de ser. Vejo mãos estendidas, braços pendidos, corpos sequiosos de abraços fechados, de mãos apertadas. Vejo lábios rectilíneos, sem curvas, sem movimento.

No meu gabinete às vezes vejo o escuro, a escuridão, o degredo, a anedonia, a ausência de espaço respiratório. A dor em todos os seus limites. O humano em todos os seus disfarces, em todas as suas facetas e disposições. Vejo a desesperança e o desespero, vejo carcaças vazias.


Tudo isto é natural, pois no meu gabinete procura-se ajuda, procura-se sair destas visões, destes estados, destas maleitas fétidas que corrompem o caminho único que é viver. Tudo isto é humano e para muitos até consegue ser poético porque se passa às palavras, ou à pintura, música, às artes...para muitos outros é só isto, dor.



E por ser assim, eu contrario as regras de posicionamento terapêutico e sento-os de costas para a porta, de frente para a minha janela, cheia de luz, de vista para o mar e trabalho o inverso de tudo isto. Faço-o como pessoa, que também viajei, que também conheço os sítios de onde eles partem, ou onde eles param. Faço-o, convencendo-os que não pensem na porta e sim em si mesmos, nas suas próprias saídas, sem namoros pelas saídas fáceis ou ilusórias. Acompanho de mão dada o caminho pelo sofrimento crescido, que pode levar à luz que está em frente.

Faço-o mesmo sem saber as dimensões da escuridão, porque não é preciso. Só preciso de me ligar a eles empaticamente, sem comparar sofreres, percebendo apenas a dimensão do sofrer no outro. Faço-o como terapeuta, como mãe, mulher, ser humano, faço-o com apenas o propósito de os nortear, ensinar a verem dentro de si, a reacreditar, a renascerem dentro de si mesmos. 

Faço-o às vezes com um toque, um abraço, um silêncio ou uma piada. Faço-o não dizendo nada, dizendo-lhes o que me disseram ou descobrindo o que não querem eles ouvir. Acima de tudo acendo as luzes, sublinho o bom, destaco o que já foi, identifico o que foi, o que é e o que será, sem contaminações. Sou talvez uma professora da esperança, da fé em si próprio, sou talvez uma mão dada para o caminho de subida do fundo de um sítio qualquer para onde caímos de vez em quando.

Talvez tenha de ser um apoio no degrau, ou talvez tenha de ser o empurrão gentil que precipita as coisas. Tenho é de ser algo positivo, constuctivo, iluminado. Estamos num mundo com dor e sem tempo. Com sofrimento e pouco afecto. Estamos num tempo que precisa de dar espaço para ser, mas que se mede em ter. Este século será um desafio a nós próprios, o desafio de aterrar dentro das nossas luas, saber sobreviver à ausência de ar respirável, de criar recursos internos que nos sinalizem os perigos aos quais nos entregamos quando perdemos o nosso eu nas pressões que circundam.

Estamos num tempo em que temos de saber estar só, em que não podemos não apreciar o que somos e o que nos rodeia. Um tempo em que é preciso saber parar relógios, saber criar intimidade connosco e com os outros, em que temos de treinar pensares para a sobrevivência, para o encontro. Num tempo egoísta temos de treinar o altruísmo. Temos de ter o outro em conta, sair do sítio.

Precisamos de aprender, gerir, trabalhar as perdas, construindo felicidade. Temos de sobreviver para existir, para ser, para reconhecer e sonhar.

O Homem tem destruído alguns dos pilares que criavam proximidade com o divino, com a natureza, com as fontes externas de esperança, sem se aproximar de dentro, de si mesmo, sem arranjar substituto para a sua fé, para ter acesso à criação de uma esperança interna. Há uma sensação generalizada de se estar desprotegido, só, desamparado, perdido em movimentos automáticos impostos por uma sociedade que somos nós. 

Deparamos-nos com momentos que achamos importantes, sem poder dar-lhes essa importância, tendo de carregar culpabilidades em vez de conseguir em proactividade reordenar as prioridades pela ordem que lhes era devida. Estamos presos, e ao longo dos anos a consequência vê-se nas cadeiras do meu gabinete. Vê-se nos comportamentos da sociedade, nos jovens que crescem.

Vê-se nas problemáticas do amor, da exaustão, da depressão, de uma ansiedade generalizada, de um desassossego desmedido regrado cada vez mais por medicação ou desesperos aparentemente sem saída.


Mas neste mesmo gabinete também vejo a força humana, a resiliência, a capacidade de superação, a mestria nas tormentas, a capacidade infinita de redescoberta, a vontade motriz que pode mover mundos, vejo as não desistências, a pequena chama que se transforma em fogo quando se lhe dá um sopro. Vejo gigantes, guerreiros, lutadores sem tréguas. Vejo a beleza imensa do ser humano, nas suas capacidades, naquilo que está por explorar, no mais além que reside dentro de nós, ainda que dentro de limites muito próprios. 


E essa visão faz falta por todo o lado. A visão de que somos capazes de, na nossa vida, junto dos nossos, de quem nos rodeia, reflectir o que essas pessoas são, o que vemos nelas, o seu potencial máximo, o seu melhor lado, as suas forças e habilidades. Faz falta não sermos críticos e sermos apoiantes. Faz falta olhar o outro com beleza e a neutralidade de não reflectir. Faz falta dar, ter tempo, olhar, ouvir, querer. Faz falta parar, respirar, sentir. Faz falta querer ser, reconhecer e lutar por.

Os tempos mudam, mudam as nossas necessidades, as nossas dores, fazemos ciclos, passamos por fases, mas a essência, o crucial, a fé, a esperança, a magia, os sonhos, não podem ser perdidos ou despojados num canto qualquer, que nos leve de todo a beleza de estar vivo, com dores e sofrimento, mas com a capacidade de seguir em frente. 

Temos a responsabilidade e obrigação de fazer valer o caminho, de nos respeitarmos ao ponto de querer descobrir o que vem a seguir. O dever de não poder não acreditar. A paixão de nos fazer querer viver. Estamos num tempo que temos de parar e reflectir, trabalhar a gratidão em nós e reconhecer que precisamos todos uns dos outros. E todos temos impacto uns nos outros. O tempo de saber ser, com o pacote todo, saboreando o todo, criando novas formas de fé e de esperança, trabalhando o nosso eu para um estar mais positivo, mais centrado, mais em paz e aceitação. Um tempo para sentir muito, viver bem com isso e saber deixar a nossa pegada, positiva, cuidada, em tudo o que fazemos. Um tempo de gostar de nós e dos outros, de dar o nosso melhor, de dar, dar tudo, dar muito e aguardar as leis da reciprocidade.

Bem hajam os guerreiros da humanidade, os sobreviventes, os lutadores desta caminhada maravilhosa e desafiante. Admiro todos os que andam nesta luta...não é fácil, mas tem tanto de bom.

quinta-feira, 8 de março de 2018

MULHER

MULHER


Definição: mamífero primata, fêmea, bípede, sociável, que tal como o homem, se distingue de todos os outros animais pela faculdade da linguagem verbal e pelo superior desenvolvimento intelectual e se distingue do homem pela capacidade de engravidar, ser humano do sexo feminino.

Hoje, dia 8 de Março celebra-se o dia da mulher.



Hoje deixo aqui umas linhas sobre nós, as mulheres, numa modesta homenagem às lutadoras que tenho o prazer de conhecer e que considero minhas amigas e a todas as outras mulheres que fazem do seu caminho uma história pessoal. 

Nestes dias, não basta falarmos de direitos humanos, mas sim perceber que estamos a falar de um ser que muitas vezes continua a ser tratado com menos respeito, dignidade e igualdade. Há histórias, nos dias que correm, demonstrativas do atraso que a humanidade tem neste assunto, entre tantos outros. 

Por isso, que se homenageie hoje todas as mulheres que morreram e deram origem a esta celebração, e que se lute por todas aquelas que ainda não têm o seu espaço de liberdade assegurado, fazendo com que se perca a necessidade de pedir por uma igualdade que não é sequer negociável ou sequer questionável.

Não sou feminista, sou mulher, um ser humano igual aos outros, com todas as diferenças que me tornam única, não só porque sou mulher, mas também pela minha história, por todo o meu caminho. O que espero? Que o mundo inteiro perceba que há seres humanos, ponto! E que num respeito, igual, por todos eles sejamos todos capazes de celebrar a existência e a diferença.

Bom dia a nós todas. Bom dia malta.

Nesta nossa Vida de bulício quanto tempo ou atenção dedicamos nós ao reconhecimento de quem somos e ao que diariamente fazemos?
Quanto tempo somos nós capazes de gerir, roubar, dedicar à nossa pessoa, para que no meio de tanta demanda, sejamos nós capazes de nos sentirmos bem, de nos sentirmos amadas em amor-próprio?

Quanta culpa dança dentro de nós se o fazemos? Quantas coisas se penduram por cima das nossas cabeças, quando ao tirarmos algum desse tempo, deixamos tantas outras coisas por fazer?

Quantas vezes parece ser necessário fazer prova de quem somos e das nossas capacidades, como se o jogo estivesse sempre inclinado para um determinado lado?

Quantos julgamentos são lançados na nossa direcção, até por outras mulheres, se as lides da casa não estão em dia, se não estamos arranjadas, se não temos um corpo mais ou menos, se ganhamos peso ou se temos raízes a aparecer no meio do cabelo pintado?

Quantas bolas andam no ar, nas nossas mãos de malabaristas, enquanto tentamos saber ser e saber respirar?

Quantas vozes pairam dentro de nós diariamente nos nossos filmes mentais, a dizerem o que fazer, a criticar o que está feito, a imaginar cenários e a suspirar por um final feliz cheio de romance e sapos que são príncipes?

A mulher é tanto e castiga-se tanto. A mulher é tão bela e duvida-se tanto. A mulher é tão capaz e às vezes não a deixam acreditar.

A mulher é romântica, sonhadora, suave, bela, carinhosa, é uma menina crescida, cheia de encanto e múltiplas capacidades.

A mulher é um dicionário inteiro, nas facetas que tem e é capaz de assumir. Podendo ser muito doce e dada para com todos os outros, mas muitas vezes dona de uma mão pesada para si própria.

A mulher é exigente e mesmo sendo dona de muita beleza, luta batalhas internas enormes, para conseguir gerir o seguir inteira. A mulher não tem idade, tem formas de estar que se entrelaçam umas nas outras e vão permanecendo em nós ao longo da viragem dos dias, deixando marcas que são os sinais das suas vitórias, ainda que a mulher muitas das vezes perdida na sua modéstia, se julgue por baixo.

A mulher tem no seu rosto, no seu riso, um colo perpétuo, um mistério por descobrir, um écran repleto de histórias por descobrir que fascinam o mundo, pois os seus recantos e jardins proibidos são autênticos tesouros sobre o seu funcionamento emocional e os seus pensamentos intrincados.

Muitas de nós floreamos uma mera existência, transformando-a numa história de encantar, ou numa aventura por descobrir. Arrebatamos a vida com pragmatismo fantasioso, munidas de potentes ferramentas que nos conseguem tornar únicas e super-heroínas.

Nada é mais bonito do que ver o rosto de uma mulher abrir num sorriso, num rir descontrolado, num olhar apaixonado, num olhar a um filho, no conter de uma lágrima.  A beleza da mulher irradia-se no rosto, espelhando a alma no olhar.


A mulher distraída tem caravelas nos olhos, e no rosto vai desenhando os caminhos que faz...transparecendo os sentires, as dúvidas, os desagrados e as marcas pela vida deixadas. A mulher é diferente, é única. Guarda em si opostos e sinónimos, conjugando os verbos em todos os seus tempos e pessoas. A mulher sabe dividir-se e multiplicar-se, crescendo para lá do seu corpo, movida a afectos.


A sua beleza multiplica-se de forma exponencial numa correlação com o afecto e a atenção que recebe.


A mulher coabita com diversas versões de si mesma em si própria, alternando pelos diversos papéis que representa perante a vida e os seus. A mulher consegue ser Eva, uma tentação, uma sedutora, jogadora dos seus amores, numa sensualidade sem medida, tornando o mundo pecaminoso, assim como consegue também santificar-se na defesa dos seus filhos e no seu papel de mãe.


A mulher procura conhecer-se e saber do que gosta, a mulher sabe dar-se, muitas das vezes sem medo, o que faz dela uma ávida aprendiz do amor.


A mulher é forte, resistente, boa gestora, capaz de inventar soluções de forma quase mágica ou sobrenatural. Pode passar tempos sem cair, sem descanso, sem olhar a si mesma, na luta de dar o que é preciso a quem de si precisa. Não parando independentemente das desigualdades que enfrenta, dos desafios que surgem, da falta de apoio ou até da falta de forças, tenha ela a motivação.



A mulher é também sensível, suave, frágil, emocional, se a vida lhe tocar nas teclas doridas, nas emoções, nas penas e nos sentires.


A mulher é tão corajosa que chora. Chora muito, chora sempre que precisa, sem medos de julgamento, sem temores sobre os seus sentires ou sobre as dores que a assolam. Às vezes até chora sem saber porque, como se chorasse dores guardadas que já se esqueceram.

Chora num filme, chora as dores de alguém, chora porque está feliz, porque alcançou algo, porque perdeu um brinco ou porque partiu alguém que amava. Chora de rir, chora a saudade, ou a morte de um desconhecido, trazendo um certo equilíbrio às insensibilidades do mundo. às vezes choram-se as lágrimas do mundo.


A mulher é amiga, dada, parva, tramada na exigência. A mulher dá tudo ou tira tudo. Está lá quando os outros já saíram. Está lá quando é preciso e não precisa de ser lembrada. Tem um coração gigante onde cabem tantas pessoas e tanto amor. Zanga-se e perdoa com igual facilidade. Ama e cuida em verbos no presente.


A mulher é mãe por inteiro, treina-se de criança, é inato o seu instinto de cuidar, de zelar por, o seu estar maternal. Uma mulher tem uma imensa capacidade de se dar, de se sacrificar pelos seus filhos. Cresce ao tamanho de gigantes e adquire poderes de Deus. Tem a capacidade de virar um animal feroz na protecção das suas crias, de virar o mundo do avesso na procura do que for necessário para os seus.

A mulher é capaz de suportar as maiores dores para trazer um filho ao mundo, e nos minutos seguintes colocar as dores de lado para amar, para amamentar, para descobrir este novo ser, para olhar o mundo com um novo olhar e um novo peso sobre os seus ombros. 

A mulher em nome desse grande amor é capaz de viver um novo corpo, perder as suas antigas fronteiras, passar a viver de forma completamente diferente da anterior. 

Uma mulher mãe, nunca mais é totalmente livre, aprende a abdicar de muitas coisas em favor de um coração que habita fora do seu próprio peito. Uma mulher mãe aprende a viver a vida de múltiplas maneiras, numa gestão de dores e energias, sempre com saldo positivo se dos filhos se falar.

Uma mulher, que é mãe, é um ser maior, pois uma mulher sabe dar ao infinito, perdoar mais além, antecipar as quedas, dar o melhor colo do mundo, ter beijos que fornecem antibiótico e analgésico, uma mão de veludo para o afago, um olhar que adoça a alma e um dedo que adivinha. A mulher mãe ouve e vê com o coração. E perdoa antes de saber.


A mulher é única. Grande, enorme e tão pronta a receber como está pronta a dar.

A mulher usa as suas medalhas escondidas dentro da roupa, ocultas nos cantos dos olhos, marcadas pelos cantos da boca.

A mulher é diferente!

Nunca tentem ser iguais. 

A igualdade deve estar no respeito e nas oportunidades, e não numa equiparação de capacidades. Sejam únicas e especiais as diferenças que fazem a mulher, MULHER.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Nome? Dores. Na primeira pessoa

Ainda a dormir, num estado letárgico, enumeram-se na minha cabeça, num misto de sonho e de lucidez, uma lista infindável de coisas a fazer. Misturam-se as coisas que são sonhos e projectos, com as coisas básicas do dia-a-dia. Vou despertando e como um comboio a vapor, começo a ganhar energia, alegria, vontade. De dentro, de lá do fundo, brota a gana de querer ir à luta da Vida, bebendo dela com toda a sofreguidão.
Talvez porque sempre fui assim, cheia de vontade de viver a vida. 

Mas de repente, nesse estado de quem acorda, despertam outros sentidos, de peso brutal e do meio de mim começam a surgir as estradas mais escuras e sombrias que coabitam diariamente no meu seio. Viver com a dor. Viver em dor crónica, repetitiva, castrante.
Essas estradas não têm luz, fedem a humidade e nada as areja...quando lá entro, sei de certeza que andarei perdida, às vezes umas horas outras vezes uns dias. Ainda não tenho mapa, tornaram-se presentes no meu mapa de vida já lá vão uns anos e de uma forma pegajosa colam-se à minha realidade, num desejo destrutivo. Desde o seu aparecimento, que tudo se tornou uma luta.

Há uma vida estranha e quase dupla, quando se vive este estar na primeira pessoa. Há
uma partição, uma bipolaridade do eu consoante o caminho que ganha a luta. Há uma dança às vezes perdida, que se articula entre uma música sem som, num grito mudo que se perde na garganta, porque já não nos aguentamos a nós mesmos.
No começo, banalizam-se, justificam-se pelas pequenas asneiras que vamos fazendo, porque se mudou um móvel, porque se abusou nas horas em pé, porque, porque.

Depois começa a estranheza, o questionamento. Porque não passa? Porque não vão embora? Depois procura-se ajuda, passeia-se pelos gabinetes médicos repetindo a história vezes sem conta, na procura de uma resposta, duma orientação, de soluções que nos providenciem qualidade de vida. 

Deparamos-nos com boas pessoas, maus médicos, egos gigantes, ausência de saber, inúmeras tentativas de caminho, mas no virar das estradas mais luminosas que temos dentro de nós espera-nos sempre, sem ritmo, sem previsão, umas das mais bafientas, das mais assustadoras.

E tenta-se, um comprimido aqui, um tratamento acolá, uma massagem assim, umas agulhas aqui e ali. Fala-se das estradas, queixamos-nos do caminho, gritamos, esperneamos, perdemos a calma, a razão, a paciência. Há momentos de sub-solo, de total desnorteamento. E o tempo passa, lânguido, lento e implacável. E repetem-se perguntas, como estás? Como te sentes? E na resposta honesta de descrevermos as estradas, como a merda que são, recebemos estradas de esperança, de alento, que tanto servem o propósito de nos aliviar, se já estamos melhor, como nos cria a revolta de não acreditar em nada do que nos dizem.

Há verdadeiramente dias sem esperança, sem fé, sem nada.

Este não é um fenómeno de crise aguda, é um fenómeno de tortura continuada. Um sublinhar de impotência ou de incapacidade.
E depois vem o tempo, de resignação, de entendimento da besta, por muito que não se saiba de onde nem porquê. Um tempo de calmia, em que se tenta aceitar e planear como é que vamos fazer isto? Desiste-se, atira-se a toalha ao chão, deixamos-nos cair por terra e o resto do mundo que continue, ou arranjamos no nosso âmago respostas que nos ajudem a caminhar as outras estradas, como que esquecidos das que nos assustam e tornam impotentes?

Não é fácil, porque a partir daqui, o processo vai ser cíclico e nem sempre será lógico. Passamos a ser doutorados do planeamento de estradas, dentro das nossas fronteiras. Sabemos muitas vezes mais do que os médicos sobre o que dentro de nós se passa, mas como remanesce a esperança de respostas mais fáceis, do que sermos nós mesmos de mãos vazias a abrir caminho, ocasionalmente caímos de novo e desejamos a resposta milagrosa que teima em não chegar.

E neste caminho tortuoso, temos de encontrar o nosso próprio sentido, a forma de seguir, as técnicas para não demorar por becos e vielas. Aprendemos a gritar, sem voz, a morder a vida em pequenas dentadas, numa gestão diária mas com loucuras pousadas em amanhãs distantes.

Reconhecemos o que nos faz bem ou melhor, passamos a estar em alerta aos sinais que vamos tendo e quando não as vemos (as estradas mofadas) ao virar das esquinas, abusamos e vivemos a vida de forma lambuzada, depois caímos, desaparecemos do mapa, ficamos no chão à espera de qualquer razão para seguir, para nos sabermos levantar e mandar tudo isto à fava. E vamos andando em ciclos ditados pelas nossas próprias forças, pelas nossas próprias ferramentas.


É difícil, pois às vezes só nos apetece falar desta porcaria toda, num desabafo louco que parece carregado da esperança que ao falar alivie. Outros momentos não nos perguntem nada, pois não queremos dar-lhe forma, pois já dói que chegue e não apetece reconhecer a sua existência. Outros momentos nem as temos tão presentes e conseguimos esquecer que a vida dos últimos tempos tem sido uma gestão eficaz de momentos, de intervalos.

Para mim, ter estas estradas, sem fazerem parte do meu mapa, tornou-se crucial. Não lhes dar espaço para ditar a minha vida, e criar momentos em que consigo gerir um esquecimento fingido da sua existência. 
Para mim, na primeira pessoa, resulta ter aprendido a reconhecer o que as alimenta e o que as aniquila. Assim, permito-me a gestão de mim e da minha caminhada, consoante a sua ausência ou presença.
Para mim, resulta ter feito uma recusa ao seu domínio, ainda que tenha muitos momentos em que não mando nada.
Para mim resulta tratá-las por tu, mas não fazer delas minhas convidadas. Recuso-me.

Aprendi também a ter uma postura perante a vida, que me permite dar-lhes bailinho e fugir de lá sempre que possível. Nos dias em que me pesam na alma e me tiram o mapa, combato-as com planos de futuro, com sonhos lindos, com histórias escritas por mim, também elas na primeira pessoa, que me distraem do seu encantamento e tentativa de massacre. 

Nem sempre ganho, mas vou fazendo destes ciclos processos mais conhecidos, mais fáceis, mais loucos, na revolta de não me deixar apagar do meu próprio caminho, por limitações impostas e não pedidas ou desejadas.

Para mim resulta explorar o meu eu aos limites, viver a vida nos detalhes, ver o belo e o positivo. Perder-me nos momentos, como se fossem únicos, como se abastecesse um depósito de energia renovável, que me permite batalhar para encontrar as saídas. Passei a apreciar muito mais o que posso fazer, quando o posso fazer. Passei a dar-me mimos com mais frequência e a tentar gerir o impacto da sua imposição, no dia-a-dia da Vida. Tenho fases. 

Tenho ciclos e opostos. Trabalho no entanto a aceitação deste processo, da ignorância sobre as dores, as suas causas ou tratamentos. Incorporo no meu dia fugas planeadas a esse mundo sombrio, trabalho os meus pensamentos para caminharem fora desse estar, planeio estratégias para quando não estou bem, mantenho a exigência do que quero levar da vida, mas deixei de querer ser um super-ser. Sei os meus limites, as minhas fronteiras, e o que quero conquistar. Por isso luto contra e na primeira pessoa, tento ser topógrafa da minha essência. Se caio, deixo-me ir e planeio o levantar. Se não ando lá por baixo, vivo os momentos sem mapa, mas cheia de luz.

É uma luta, merece reconhecimento de quem está ao lado, apoio e colo especializado. Entendimento das oscilações de estar, paciência para saber esperar que nos encontremos. Merece a mão estendida para que nos levantemos com apoio. Mas acima de tudo, precisa de decisões internas de querermos viver em pleno, ainda que com momentos entre aspas.

Nome?

Eu, por inteiro, no desejo de ser melhor e feliz. 
Eu, na luta diária para encontrar caminhos de vida. 
Eu, pessoa que mesmo dizendo que estou bem, travo lutas sombrias, em ciclos desconhecidos.
Eu, que não me defino pelas dores que tenho.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Perda e luto, a dor que não tem sossego...

Não há dor mais aguda, mais dilacerante, mais solitária do que a dor da perda, da saudade que ganha o peso eterno, da saudade do que não foi, da ausência que passa a dilacerar, que enjoa, desnorteia e deixa alguma cegueira de amanhãs.

Não há dor mais só, mais negra, mais vazia, sem preparo, sem aviso, sem rede...

É desconcertante lidar com o não estar lá, com o não poder dizer nada, com o mutismo que nos sobra entre mãos, pois não há a quem dizer. E nesses momentos surgem todas as coisas que não se disseram, as que se disseram mal e as que eternamente saberemos de cor, porque se disseram e fizeram bem.

O luto é uma saudade desarrumada, uma ferida que demora a cicatrizar e que abomina a
palavra que a cura. 

Não há nada pior do que saber que a única coisa que alivia este processo é o TEMPO, pois é na perda que se percebe a dimensão do tempo que não chega, o que não passa e a falta de fé e esperança no conceito global que o tempo deve ter.

Na perda eu não quero sentir o tempo. Eu não quero viver o tempo. Porque a saudade tem cheiro, tem nome, tem histórias e sentires.

Somos animais de fé e esperança, somos entidades que lutam diariamente com a sua noção de fim, mas acima de tudo que lutam por se afastarem do medo de perder de quem se gosta. Tememos a finitude do que é alheio a nós e para suportar essa
dor antecipada vivemos como se donos do tempo fossemos, fugindo à crença de que o tempo por cá é finito. E este jogo de "pseudo" ignorância assegura-nos o alívio de não sentir um medo diário de perder.

Mas a vida de vez em quando, dentro do que é perfeitamente normal, ceifa e leva-nos das mãos, do olhar, da proximidade, os que amamos, aqueles de quem não suportamos distância e ausência.

Nesse ceifar, encontramos-nos destruídos de dentro a tentar dar sentido ao que
aconteceu, na revolta de aparentemente ter de continuar, morrendo de desgosto egoísta pela ausência, morrendo de medo de partir ou de perder quem está à volta. 

Na morte, no luto, na saudade, no desespero, olhamos à vida e queríamos ou precisávamos de pôr todos os que amamos a seguro e acreditar por alguns momentos, para que tudo isto não fosse insuportável, de que não vai haver mais perdas.

Nestes momentos fazemos as rotinas para sobreviver mas percebemos que ou estamos anestesiados ou, as rotinas relembram o outro e a dor do não estar lá. No luto, na perda, as palavras ferem, pois ao espreitar da esquina as palavras têm lembranças e estão gastas demais para aliviar.

Na dor circular destes afectos mais negros, ficamos descalços, vazios de bolsos, nada lá temos que nos agarre ou empurre. Há segundos eternos e semanas ausentes...não há tempo e afinal dizem que ele cura. Nestes momentos não queremos ensaios sobre o tempo e toda a sua ajuda, nestes momentos não queremos luz ou paz, queremos um veículo para a revolta, um abraço que aperta e não dá espaço para dúvidas. Não queremos sons, precisamos de gestos. Precisamos de quem tome controle e nos arraste nessa passagem anestesiada.

Nessas dores fundas de alma, precisamos de aprender a respirar e precisamos de ter alguém ao nosso lado que nos lembre de respirar. Precisamos de ter quem passe o tempo connosco a adivinhar o que é preciso. Precisamos de saber que temos quem respire connosco, quem esteja, quem olhe por nós. 

Só isso, sem palavras, em silêncios cuidadosos que se fazem chegar através do colo velado o amor que cura e ajuda a passar esse tal tempo. Precisamos de sentir as asas quentes, enormes e suaves que os que nos amam estendem em nosso redor, para saber sentir que estamos vivos e saber que alguma coisa algures num tempo que ainda não chegou, nos vai fazer sair daqui, deste lugar negro onde ficamos e que não prevemos.

E num dia, que não se mede, que não se vê chegar ou que não se espera, o tempo, a família, os amigos, o amor, os afectos, os silêncios, os abraços, as asas e as lembranças, fizeram o seu trabalho, agiram sobre a dor, e um dia é mais fácil. 

E um dia vai sendo mais fácil, voltamos a respirar sozinhos. E voltamos a acreditar que se sobrevive a dores assim, podendo saborear uma saudade boa, podendo recordar sem chorar, podendo ter presente, numa ausência eterna.


Com um xi-coração para uma amiga que perdeu...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulher! Dou-me o direito...de ser quem sou.

Bom dia mulheres, bons dias a nós entidades femininas, seres diferentes dos restantes, únicas no nosso desenho.

Tantas palavras e conjuntos de sílabas podemos nós utilizar para tentar captar ou homenagear este ser. Tanta tinta e fotografia surge a criar um vislumbre sobre a beleza desse mundo. Tanta publicidade e lutas se geram para defender algo que devia ter sido sempre inerente à nossa definição, mas desde todo esse sempre insistem em de alguma maneira defraudar esse espaço, único, mas no entanto igual.

Porque será que nos denominaram de sexo fraco?

Porque será que em pleno século XXI ainda temos homens em lugares de destaque a defender que devemos ser menos pagas porque somos mais estúpidas?...porque será que é necessário, numa sociedade supostamente evoluída ainda ter de defender a nossa potencialidade, a nossa virtude, a nossa capacidade, a nossa competência?

Porque será que ainda hoje se observam discrepâncias nos salários entre homens e mulheres que desempenham os mesmo papéis?

Porque será que ainda hoje as mulheres têm de ter medo em muitas das situações dos seus dia-a-dia?

Porque será que temos de ser apelidadas com adjectivos muito feios pela forma como nos comportamos ou vestimos?

Porque será que muitas de nós têm de provar que conseguem ter trabalho ou carreira, mas no entanto, acumular um outro trabalho para dentro das portas do ninho?

Porque será que temos de nos esforçar assim tanto?

Porque será?

O Homem é um ser grandioso, brutal, magnífico. O homem é um ser extraordinário, imenso, sem dúvidas...e este meu texto não tenta de forma nenhuma diminuir o quão especial os homens são ou as imensas capacidades e características que os compõem. Mas sim, vem destacar e reconhecer o sexo feminino e as suas lutas. O sexo feminino e as suas múltiplas belezas.

Hoje homenageio todas as mulheres. Todas sem excepção, por todas as suas lutas e características, por todos os seus pormenores e complexidades, por toda a sua simplicidade e fantasia. Por toda a sua magia e a sua força. Por todas as suas lágrimas e capacidade de amar. Por toda a sua inteligência e sensibilidade. Por todos os seus defeitos e virtudes, por todas as suas dores, por todas as suas derrotas, por todos os seus desejos de continuar, de seguir, de dar mais e melhor.

Hoje enalteço este ser. Este grupo. Esta essência e este tipo de alma.

Hoje o dia é nosso. Hoje o dia é grande e merecido, porque hoje todos nós, toda a humanidade, todo o Homem e homens devem parar para pensar no papel destas entidades, destas criaturas que circulam entre todos e, em muitos dos seus gestos deixam marcas indeléveis no percurso de uma história que já se mostra longa.

Hoje grito em palavras escritas o orgulho que tenho em ser mulher, em conhecer grandes mulheres e em perceber quem somos e o que nos compõe.

Hoje tentarei de forma muito modesta dedicar o meu discorrer a nós, mulheres guerreiras de lutas imensas, no viver dos nossos dia-a-dia.

Na minha opinião não há que lutar pela igualdade de ser, eu não quero ser igual, eu orgulho-me de ser diferente, de não ver da mesma maneira, de não sentir da mesma maneira, de não descrever as coisas ou falar da mesma maneira, eu orgulho-me de ser capaz de parir e de ter seios, de chorar com facilidade, de não ter a mesma força física, eu orgulho-me de tudo o que me torna diferente. Mas no meio de toda essa diferença respeito-me e a todas nós de tal maneira que não entendo a diferença no tratamento, nos direitos, no acesso, nas escolhas...

Eu admiro-nos pela forma pragmática com que encaixamos contos de fadas nos dias mundanos, sem com isso sermos princesas. Admiro a capacidade de algumas de nós de fazer em saltos altos uma luta de dragões.

Admiro a nossa capacidade de investirmos em nós a aprimorar a obra de arte que somos, vestidas ou despidas, com mais ou menos peso. Adoro ver como uma mulher amada e feliz, brilha na sua beleza. Adoro ver a beleza de um sorriso de uma mãe, quando secretamente vê o seu filho ou pensa em quem ama.


Adoro a beleza do nosso corpo, das nossas estrias, do peso dos nossos seios que amamentaram os frutos do nosso ventre. 

Admiro as de nós que optam por não serem mães ou as que tentaram e não conseguiram. Admiro a carapaça, a armadura, a robustez do nosso físico e da nossa resposta à dor. Adoro a fragilidade da pele, do tremer, do arrepiar, através das emoções que trespassam o coração.

Adoro a nossa capacidade de chorar sem saber porquê, ou de chorar a alma em silêncio. Admiro a nossa vontade férrea, a nossa obstinação e dedicação.
Adoro o tamanho do nosso coração...o calor das nossas mãos nos abraços que damos. Respeito a nossa capacidade de dar, de voltar a tentar, de não desistir...de lutar de braços caídos.

Admiro a nossa capacidade de nos darmos o direito de sermos quem somos, num orgulho de género.

Adoro a nossa capacidade de serenidade, em erupção emocional...o nosso amor filial, de companheira, de amiga, de filha e de mãe.

Adoro o nosso retrato de Evas e de Marias, num quadro combinado entre o pecado e a tentação e a pureza de ser.

Orgulho-me de ser...

Orgulho-me de ser mulher e das mulheres. Orgulho-me da nossa luta, do nosso equilíbrio, da nossa força...dos nossos erros, dos nossos perdões, das nossas vergonhas.Orgulho-me da nossa pele, dos nossos beijos, dos nossos afectos e irreverências.

Hoje é dia de reflectir, celebrar, viver, amar...hoje é um dia grande, sensível, gingantescamente discreto. Só nosso, porque não é dia para ser celebrado por quem não nos vive igualmente diferentes.

Hoje é dia mundial da beleza de ser, da enormidade do amor, da riqueza de sentir e dar.

Hoje é dia da tempestade em águas profundamente serenas.

Hoje é dia da princesa guerreira criança mulher. Hoje é um dia diferente, só nosso, de orgulho mundial. Hoje é dia de medalhas de ouro e taças mundiais.