sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Escuridão e Luz

No gabinete vejo pessoas constantemente em luta com os seus monstros internos, com traumas, medos, inseguranças, vergonhas.

Vejo pessoas em lutas diárias para definirem em si uma melhor versão de si mesmos, um estado mais tranquilo ou pacífico. Lutas para serem eles mesmos e ganharem um eu forte na sua intimidade, ganharem uma imagem de si aprazível. Vejo-as críticas de si e do mundo, perdidas num cinismo que as amarga, numa viagem sem janelas para o mundo.


Vejo a necessidade de crenças emprestadas, de um esperança impingida, de um conceito de felicidade ou de amor como se  estes pudessem ser consumíveis. Vejo-os pedintes de afecto, de atenção, de cuidados, incapazes dos esforços necessários para mudarem o tabuleiro a seu favor por falta de forças ou verdadeira motivação.




Vejo um mundo cheio de pessoas que se julgam perdidas, deprimidas de afectos, sós, atafulhadas de camadas protectoras que as inibem de sentir. Vejo raciocínios que camuflam, intelectualidades que disfarçam, jogos de escondidas que inibem de encontros com a essência. Vejo pessoas presas em caixas, de olhares postos nos outros como referências cruciais, pessoas que se tornaram reflexos de si e não as suas verdadeiras entidades. Vejo os que chamo bússolas sem norte ou barcos sem âncora.

Vejo retratos de um mundo novo, cheios de questões sobre o que está a mudar e como sobreviver num mundo que mudou depressa. Vejo máquinas respondentes e andantes, reactivas aos estímulos, sem uma verdadeira interacção. Vejo automatismos linguísticos vazios da reflexão necessária. Vejo pessoas que são capazes de gritar os seus sentires disfarçados nas frases dos outros no mundo digital, escondidos na distância de teclados. Vejo-os mudos no seu mundo. 

Vejo pessoas exaustas, saturadas, com sensações de ratos em ratoeiras. Vejo olhos vazios, mãos gastas, rostos cravados de rugas expressivas. Vejo fantoches e marionetas, vejo desespero e sofrimento excruciante, feridas em dor lancinante.

Vejo viagens não pensadas, não planeadas, sem destino, ou apenas com destino. Vejo pessoas crianças, sem hipótese de crescer, de ser. Vejo mãos estendidas, braços pendidos, corpos sequiosos de abraços fechados, de mãos apertadas. Vejo lábios rectilíneos, sem curvas, sem movimento.

No meu gabinete às vezes vejo o escuro, a escuridão, o degredo, a anedonia, a ausência de espaço respiratório. A dor em todos os seus limites. O humano em todos os seus disfarces, em todas as suas facetas e disposições. Vejo a desesperança e o desespero, vejo carcaças vazias.


Tudo isto é natural, pois no meu gabinete procura-se ajuda, procura-se sair destas visões, destes estados, destas maleitas fétidas que corrompem o caminho único que é viver. Tudo isto é humano e para muitos até consegue ser poético porque se passa às palavras, ou à pintura, música, às artes...para muitos outros é só isto, dor.



E por ser assim, eu contrario as regras de posicionamento terapêutico e sento-os de costas para a porta, de frente para a minha janela, cheia de luz, de vista para o mar e trabalho o inverso de tudo isto. Faço-o como pessoa, que também viajei, que também conheço os sítios de onde eles partem, ou onde eles param. Faço-o, convencendo-os que não pensem na porta e sim em si mesmos, nas suas próprias saídas, sem namoros pelas saídas fáceis ou ilusórias. Acompanho de mão dada o caminho pelo sofrimento crescido, que pode levar à luz que está em frente.

Faço-o mesmo sem saber as dimensões da escuridão, porque não é preciso. Só preciso de me ligar a eles empaticamente, sem comparar sofreres, percebendo apenas a dimensão do sofrer no outro. Faço-o como terapeuta, como mãe, mulher, ser humano, faço-o com apenas o propósito de os nortear, ensinar a verem dentro de si, a reacreditar, a renascerem dentro de si mesmos. 

Faço-o às vezes com um toque, um abraço, um silêncio ou uma piada. Faço-o não dizendo nada, dizendo-lhes o que me disseram ou descobrindo o que não querem eles ouvir. Acima de tudo acendo as luzes, sublinho o bom, destaco o que já foi, identifico o que foi, o que é e o que será, sem contaminações. Sou talvez uma professora da esperança, da fé em si próprio, sou talvez uma mão dada para o caminho de subida do fundo de um sítio qualquer para onde caímos de vez em quando.

Talvez tenha de ser um apoio no degrau, ou talvez tenha de ser o empurrão gentil que precipita as coisas. Tenho é de ser algo positivo, constuctivo, iluminado. Estamos num mundo com dor e sem tempo. Com sofrimento e pouco afecto. Estamos num tempo que precisa de dar espaço para ser, mas que se mede em ter. Este século será um desafio a nós próprios, o desafio de aterrar dentro das nossas luas, saber sobreviver à ausência de ar respirável, de criar recursos internos que nos sinalizem os perigos aos quais nos entregamos quando perdemos o nosso eu nas pressões que circundam.

Estamos num tempo em que temos de saber estar só, em que não podemos não apreciar o que somos e o que nos rodeia. Um tempo em que é preciso saber parar relógios, saber criar intimidade connosco e com os outros, em que temos de treinar pensares para a sobrevivência, para o encontro. Num tempo egoísta temos de treinar o altruísmo. Temos de ter o outro em conta, sair do sítio.

Precisamos de aprender, gerir, trabalhar as perdas, construindo felicidade. Temos de sobreviver para existir, para ser, para reconhecer e sonhar.

O Homem tem destruído alguns dos pilares que criavam proximidade com o divino, com a natureza, com as fontes externas de esperança, sem se aproximar de dentro, de si mesmo, sem arranjar substituto para a sua fé, para ter acesso à criação de uma esperança interna. Há uma sensação generalizada de se estar desprotegido, só, desamparado, perdido em movimentos automáticos impostos por uma sociedade que somos nós. 

Deparamos-nos com momentos que achamos importantes, sem poder dar-lhes essa importância, tendo de carregar culpabilidades em vez de conseguir em proactividade reordenar as prioridades pela ordem que lhes era devida. Estamos presos, e ao longo dos anos a consequência vê-se nas cadeiras do meu gabinete. Vê-se nos comportamentos da sociedade, nos jovens que crescem.

Vê-se nas problemáticas do amor, da exaustão, da depressão, de uma ansiedade generalizada, de um desassossego desmedido regrado cada vez mais por medicação ou desesperos aparentemente sem saída.


Mas neste mesmo gabinete também vejo a força humana, a resiliência, a capacidade de superação, a mestria nas tormentas, a capacidade infinita de redescoberta, a vontade motriz que pode mover mundos, vejo as não desistências, a pequena chama que se transforma em fogo quando se lhe dá um sopro. Vejo gigantes, guerreiros, lutadores sem tréguas. Vejo a beleza imensa do ser humano, nas suas capacidades, naquilo que está por explorar, no mais além que reside dentro de nós, ainda que dentro de limites muito próprios. 


E essa visão faz falta por todo o lado. A visão de que somos capazes de, na nossa vida, junto dos nossos, de quem nos rodeia, reflectir o que essas pessoas são, o que vemos nelas, o seu potencial máximo, o seu melhor lado, as suas forças e habilidades. Faz falta não sermos críticos e sermos apoiantes. Faz falta olhar o outro com beleza e a neutralidade de não reflectir. Faz falta dar, ter tempo, olhar, ouvir, querer. Faz falta parar, respirar, sentir. Faz falta querer ser, reconhecer e lutar por.

Os tempos mudam, mudam as nossas necessidades, as nossas dores, fazemos ciclos, passamos por fases, mas a essência, o crucial, a fé, a esperança, a magia, os sonhos, não podem ser perdidos ou despojados num canto qualquer, que nos leve de todo a beleza de estar vivo, com dores e sofrimento, mas com a capacidade de seguir em frente. 

Temos a responsabilidade e obrigação de fazer valer o caminho, de nos respeitarmos ao ponto de querer descobrir o que vem a seguir. O dever de não poder não acreditar. A paixão de nos fazer querer viver. Estamos num tempo que temos de parar e reflectir, trabalhar a gratidão em nós e reconhecer que precisamos todos uns dos outros. E todos temos impacto uns nos outros. O tempo de saber ser, com o pacote todo, saboreando o todo, criando novas formas de fé e de esperança, trabalhando o nosso eu para um estar mais positivo, mais centrado, mais em paz e aceitação. Um tempo para sentir muito, viver bem com isso e saber deixar a nossa pegada, positiva, cuidada, em tudo o que fazemos. Um tempo de gostar de nós e dos outros, de dar o nosso melhor, de dar, dar tudo, dar muito e aguardar as leis da reciprocidade.

Bem hajam os guerreiros da humanidade, os sobreviventes, os lutadores desta caminhada maravilhosa e desafiante. Admiro todos os que andam nesta luta...não é fácil, mas tem tanto de bom.

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