segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Vida de ofertas...caminhos de escolhas...

Sejamos adultos, jovens ou crianças, no virar da esquina temos constantes ofertas, do mundo que nos rodeia, dos que connosco se relacionam, dos que nos amam...ou que nos são indiferentes, dos media...do clima, da Vida...essas ofertas implicam escolhas, que resultam em caminhos e consequências, que nos levam então a mais caminhos e escolhas, e mais ofertas...

E que fazemos nós?

Às vezes...afogamos-nos...perdemos o norte...ficamos sem caminho, ou perdemos-nos nas escolhas...

Chegam-me jovens bombardeados por ofertas tentadoras, sem capacidade de decisão, pressionados a decidir pelos pares, de forma a manterem um certo estatuto...

Chegam-me crianças que não brincam, porque a oferta é tanta, que não sabem escolher, ou, o brincar perdeu a graça...

Chegam adultos...em caminhos entrelaçados, trocados, desorientados, perdidos nos meandros de tanta direcção, de tanto caminho...de tanta oferta e, incapazes de decisão.

Que Vida é esta de hoje, em que nos perdemos nas escolhas entre pedaços, aroma, light, liquídos, bífidus, zero, grego, tipo grego, marca ou linha branca, embalagem pequena ou grande, entre tantas outras que talvez me esteja a esquecer...só falando de iogurtes...

Escolha de complementos a um detergente de roupa que supostamente compramos para lavar a dita, mas que se não colocarmos aditivos, não saem as nódoas, se não pusermos umas toalhitas, as cores misturam-se, se não colocarmos amaciador afinal a roupa fica áspera, se não tiver pastilhas para o calcário a máquina avaria e a roupa não limpa...uma vida em que se compra algo supostamente incompleto, até na sua função principal, e que nós, de forma encarneirada, aceitamos e vamos comprando tudo o resto que tem de ser vendido para que a indústria do que é necessário se reinvente.

Que nos percamos em decisões de escolha de actividades desportivas extra para os nossos filhos, o inglês, a informática, as actividades extra-curriculares, o apoio ao estudo, ou dez mil outras questões educativas, de suposta resolução ao verdadeiro problema do tempo, ou ausência deste, e de responder ao desaparecimento da corrida nos intervalos, do futebol na praceta do bairro, do lanche na vizinha, ou de tantas outras respostas saudáveis e comunitárias, que surgiam atempadamente porque o tempo não se decidia, vivia-se.

Será que é uma escolha do que para nada serve?
Uma escolha de Orientações?
Ocupações de tempo vazias?

Saborear e apreciar o que a nada sabe...

Um fenómeno do Rei vai nu...em que a vida e os que nos rodeiam, a sociedade talvez...nos empurre para constantes bifurcações de caminho que cada vez se tornam mais frequentes, mais presentes, nem sempre mais urgentes ou de valor...que nos desgastam no dia-a-dia, nos levam a drenar energias, e depois enfrentar o não saber...o estar sem rumo. Todos vemos, mas temos vergonha de dizer o que realmente vemos?

Vejo os vossos olhares aqui à minha frente, perdidos, sem saber...na procura, no pedido "que vou eu fazer?".

Do mais simples ao mais complicado...o olhar vagueia, porque às vezes já não se quer decidir, tomar um rumo. Porque se pode estar errado, com receio do impacto da decisão e questionando de fundo: e se eu não educo bem? E, se eu não sei o que dizer na altura certa e se revolto o meu filho, se não o faço sentir o meu amor, e se não arranjo emprego, e se não recebo o dinheiro, e se, e se...?

Que desejo de certezas é este que nos invade e nos inibe, ou, nos impede de não decidir, ou de deixar ir...ou de decidir, tomar controlo, decidir e assumir...Porque se esquece que a melhor decisão foi a que se soube tomar, a que se tomou, porque o que se sabe hoje não se sabia na altura. A cada momento decidimos com o que temos em mão, só depois podemos ir afinando o caminho, ajustando as coordenadas, mas sem culpas vazias, sem deveres escondidos...onde se perdeu o conforto de nos aceitarmos e saber que se fez o melhor, a maior parte das vezes.

A visão do certo, do amanhã, do infalível, não nos pertence, por isso fazemos malabarismo intelectual com as variáveis que temos e decidimos de coração, por isso decidimos bem...Amanhã, logo se vê, amanhã é o dia em que posso mudar, acertar, renovar, identificar e seguir em frente...continuar fiel às decisões que se tomaram.

Não valorizemos o que não tem valor, não percamos tempos, ou energias, em coisas que nos consomem de foro vazio, de esgotamento incessante em questões filosóficas que no proveito individual não acrescentam.

Não digo que não pensem, que não reflictam, que não ponderem, tudo isso é crucial para a decisão mais certa, mais confortável, com o que eu sinto e como estou, mas, digo sim, assumam, sigam e conforme a trama se desenrola, sigam adaptando e mudando o que há a mudar. Mas, não se importem com detalhes microscópicos, foquem-se no que é deveras importante, na visão panorâmica - a visão global, a que nos deixa amar a vida, a nossa vida, o nosso eu, e levar o caminho para a frente, de cabeça erguida, de foco no horizonte, de brisa no rosto, capazes de vencer tudo e todos, fazer resultar e acreditar em nós é o mais importante...decidir para seguir, para poder ajustar, para poder melhorar, para poder encontrar paz.

Às vezes, as escolhas não são tantas assim e nós sabemos o que fazer, há que confiar. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Pensar positivo no cancro...


“Sentes-te em baixo? 

Sobe a uma cadeira e deixa-te ficar alto, até passar a neura…no cancro aconselho sorrir”


É um desafio? Sim…mas que é da Vida sem um belo desafio, num dia em que nos vestem de preto pela notícia partilhada, enviada…matamos o mensageiro, ou, recolhemos ao interior de nós, e fazemos aquilo que a Vida nos ensina ao longo das múltiplas etapas pelas quais passamos e caímos e, nos permitem, aprender a levantar.

Viver com cancro, saber que se tem cancro, lidar com quem nos rodeia e que sabe o que sabemos…lidar com as nossas lágrimas e as dos outros, agarrar os aspectos lógicos e práticos, ou implorarforças metafísicas…ter de ter forças para mim e para o outro, ou mandar dar tudo uma volta, e recolher,a um cantinho, recusando-me a crescer, a aceitar…
Mergulhos de um infinito pesar, cheios de fragilidades, que noslevam ao medo…que escurecem a estrada, quem me diz…como sair daqui…todos me dizem ou sugerem “tem força”, “vais vencer isto”…”vais ver que não é nada, que vais ser um doscasos de sucesso”, mas olho no olho, cara na cara, sinto, leio… as mentiras em que, nem eles, nem eu, acreditamos.

Passo fases, claro que passo, e nem todos nós enfrentamos situações destas da mesma maneira, com as mesmas forças, vontades, redes de suporte, ou garra, de lutar pela Vida, seja ela apenas a que me resta (copo meio vazio), ou aquela que eu quero que seja, em pleno e até onde eu for (copo meio cheio).

Estas lutas internas existem porque temos que pensar, por nós, pelas condições com as quais me confronto, mas o meu pensar não é virgem, ileso, carrega-se de circunstâncias vividas, da minha personalidade e de todo o passado e bagagem que carrego até…ao maldito momento de confronto com o pássaro preto…portador de notícias…mas o que dita o meu pensar dai para a frente também vai depender daquilo que é o meu comportamento típico, o estado de animo que me costuma caracterizar e as reacções físicas que estes socos no estomago vão evocar em mim, no meu corpo, na minha alma, e na minha mente…

Aquilo que sei, por trabalhar há mais de vinte anos com pessoas, é que frequentemente demasiadas pessoas, demasiadas vezes, se desvalorizam, não reconhecendo a grandeza do ser humano, e acabam por valorizar em excesso, ou pior ainda, desmesuradamente aquilo que não são…logo este pensar pode trazer um desequilíbrio entre, o que eu realmente sou capaz de fazer, por mim, pela doença, pela luta em que me enfiaram sem ter sido convidado, ou sem ter sido parceiro activo; e aquilo que me sinto realmente capaz de fazer, de sentir. Chegando a questionar as forças que me levam dali para a frente, ganhando uma amnésia de sentir, que me impede de reconhecer em mim o anterior guerreiro, lutador, que se agarrava a qualquer coisa, para alimentar a caminhada em frente.

Então qual é o meu papel neste capítulo…? Mostrar que é possível pensar positivo no cancro, e ajudar a mostrar através de algumas partilhas e reflexões, que depois da pancada inicial, depois de ter ido ao chão, e batido com a cara, a pessoa ajudada pode lutar contra o previsível, mudar as marés, alterar os caminhos e os destinos, enganar o tempo, por em causa as decisões da natureza ou do Criador...e tomar por suas mãos, um processo, que ainda que não seja totalmente vitorioso, afasta a pessoa da sombra, do certo e faz nascer esperança no desconhecido, no 1%, nos anjos da guarda, nas estrelas, na força que se encontra dentro de si.
Porquê? Porque o fim é certo para mim, para ti, para si…e é tão só chegar lá só…e mais cedo.

Porquê? Porque se eu puder fazer crescer a minha vida um minuto, e que esse minuto seja de prazer, enganei o destino, e curti, maisum pouco…
Porquê? Porque sim, porque quero, porque vou decidir que esse é o caminho e esse é o que me assegura respeitar a minha pessoa até ao fim, permitindo que tudo aquilo a que tenho direito não me seja violentamente roubado, e porque se assim fizer, vou ter forças para enfrentar as tretas que resultam dos tratamentos, as dificuldades que me vão fazer querer desistir meia dúzia de vezes…senão uma dúzia mesmo.

Porque, na realidade eu não sabia quão forte eu era, até perceber que ser forte é a única escolha que tenho…porque só assim vivo, não estagno, não me resigno, a uma doença, que se impôs sem convite dentro do meu corpo…e sei, que com esta atitude, vou fazê-la sentir-se estranha, incomoda, a mais…e talvez se conseguir fazer esta dança, de expulsão, eu ganhe de novo o controlo sobre a minha casa, este habitáculo onde aprendi a viver os anos todos que me ficam para trás, e no qual não permito, gente que me queria mal.

É pensar…eu posso conseguir tudo (…querendo lá eu saber o que é “ tudo”agora, no meio de viver com cancro), se o quiser com toda a força, no meio de pensamentos mágicos, desejando-o mais do que tudo, com uma força que me rasga a pele, e se une às energias dos que me amam, e zelam por mim, que me sai pelos poros, e se junta e flui de mim para a energia do mundo inteiro, ao qual pertenço…do qual faço parte.

E ao pensar tudo isto, cresço, ganho tamanho de gigante, alcanço o céu com as pontas dos dedos, e acredito que vou vencer, agarro-me a essa escada vinda do céu, lançada por mim, e subo por ela, ganho altura, ganho sonhos… que me recordo terem ajudado na minha infância…lembro-me bem de tapar a cabeça, já na cama, no escuro, depois de ter visto um monstro no quarto, e para surpresa minha sempre que voltava a destapar a cabeça, o monstro tinha desaparecido, e assim percebi que tinha poderes mágicos…que uso até hoje, que quero usar agora e acreditar.

Quero acreditar que independentemente da minha idade, da minha doença, eu sou jovem! Eu tenho forças dentro de mim que me permitem acreditar que o positivo também existe, e que vem equilibrar o negativo. Numa luta entre super-heróis, em que um é o bom, reservando esse papel para mim, e o outro é o mau da fita, deixando esse papel para o cancro. Acreditar que a Vida me tem mostrado que com o negativo vem sempre o positivo, ou vice-versa, como se inseparáveis fossem. E se assim é, porque me deixaria eu, desligar do positivo, ignorar os seus acenos, focando-me naquele que me suga e me destrói…nem pensar, eu tento é desequilibrar a balança…e aumentar o positivo. Um dia a vitória vai ser nossa. Sim, eu consigo!

Acreditar que conheço velhos de 18 anos, mas que eu não vou permitir que um conceito criado pelos humanos –o tempo – me prenda, me restrinja, me deprima, e me mande abaixo. Não, eu agarro nos meus próprios ombros, abano-me, abraço-me, inspiro forte e sinto a Vida a fazer-se entrar pela minha boca e nariz…carregada de estrelas, magia, suspiros de Vida e amor, que me encherá de uma luz, minha, só minha, que me ilumina os passos, a Luta, o caminho.

Poderia falar de estudos controversos, cientificamente incorrectos, milagres mal explicados, a ciência no seu auge, em que todos ou alguns, discutem casos de cancro que se curam sem explicação, pelo menos plausível …poderia falar de teorias que existem em que, nos colocam a pensar nas células más que em mim habitam, e aprendendo posso visualizar a sua expulsão do meu corpo, e numa forma específica de meditação tentar que uma a uma, saíssem por onde entraram, sem qualquer cerimónia…mas neste capítulo, não me cabe provar a existência de estudos ou curas, mas sim despertar a vontade de perceberque o positivismo, o humor, a ajuda à luta que tem de ser travada, e a ajuda que permite desacelerar, parar e, prolongar a Vida dos processos que fazem parte, ou podem ser parte, do combate ao cancro.

Cabe-me criar uma esperança, uma fé, uma visão dourada e optimista das diferenças que crenças, atitudes e pensamentos podem desempenhar no desenrolar de uma história, da qual, me parece que, aparentemente todos têm medo de já saber o fim.

Todos temos a experiência, sem novidade, que quando pensamos positivo, conseguimos estar melhor, sentirmo-nos mais felizes, muito mais capazes de enfrentar tudo o que a Vida decida presentear-nos…os desafios que se nos colocam no dia-a-dia. Pensar bem, pensar de forma a identificar o que existe de positivo, e conseguir agarrar-me a esses pensares de forma a conseguir acreditar que mesmo no meio de tudo, há sempre algo que se pode fazer, um sentimento que ainda não se teve ou viveu, um amor por nós e pela nossa Vida…conseguimos então “curar”as enfermidades que nos assolam, quer a alma, quer o corpo.


Quanto mais feliz ando, mais apaixonado me sinto, pela Vida, pelo próprio viver, por quem sou, por quem me ama…melhor me sinto, menos stress, menos dores de costas, ou de cabeça…se conseguir recriar estes sentires, estas vontades, e canaliza-las para esta batalha, uma atrás da outra, posso pensar que talvez vença a guerra, e que talvez mesmo que não a vença, a cada batalha vencida, ganhei no contra-relógio, lutei contra o previsível, enganei e defraudei, o senhor do fato preto.

E decidi que hoje é um bom dia, para ter um bom dia!

Hoje é um bom dia, para me virar para o meu interior e agarrar-me pelas pontas e tomar uma decisão que me pode ajudar a mudar radicalmente o percurso que se vai seguir, com a decisão que esse caminho estará sob parte do meu controlo, ainda que tenha de partilhar o lugar de condutor de vez em quando.

Na relação, com os outros, ou connosco mesmos, temos todos os nossos momentos. Momentos de prazer em que nos olhamos nos olhos, e sentimos que o outro nos conquista, no dia-a-dia, nos seus gestos de prazer que até já podem ser gestos conhecidos de cor...Momentos em que sabemos de certeza absoluta que gostamos de nós, até mesmo muito, e que gostamos da nossa vida, mas se num improviso nos atrevemos a questionar, porquê? Vamos levar o nosso tempo a filtrar toda uma série de informações, mal- arrumadas e confusas, que tendemos a organizar de forma que nem nós percebemos porquê, mas que no fundo nos asseguram a certeza de sentimentos que muitas vezes nem questionamos.

Na vivência da rotina, do quotidiano, das pequenas coisas da Vida, esses cantos já não muito organizados, ou até arrumados, podem ficar esquecidos ou pelo menos arrefecidos, mas no meio de um processo de procura, de encontro, de luta, por mim, pela minha Vida, pelos outros que me rodeiam, vão ganhando forma se deixarmos, e vão dando força para lutar em acreditar que todas as situações podem vir a ficar melhores.

Aqui, começou-se um caminho de reconstrução pelo qual vale a pena caminhar, pois todas as conquistas, ainda que pequenas são nossas, são suas...e daí, ainda que com alguns recuos, a caminhada pode continuar e com mais sentido, sem nada adormecido ou arrefecido. Claro que dá trabalho, e em momentos como estes, enfrentar a doença, os outros, e ganhar esta vontade de trabalhar para seguir em frente, pode tornar-se difícil. Mas, peço-vos que pensem em exemplos, exemplos de algo que vocês sintam que vos preenche, encante, vos dê sentido à Vida e a quem somos ligados, ou queremos ser. E digam-me, que não vos dá trabalho! Não acredito, que o consiga fazer. Tudo na nossa Vida, bom, melhor, mau, dá trabalho, por isso vale a pena trabalhar, lutar para transformar o mau em bom, ou não deixar o bom ficar mau.

A cada passo para trás, ou pausa, ou caminhada para o lado, pense na conquista, no fim, e pense em tudo o que já ganhou só porque tentou e não desistiu. Pense que ao dar tudo por tudo, não desiste, e transforma o que não era bom, em possibilidades. Melhora-se a si no processo.

E se às vezes me apetece desistir, não deixo, faço com que acorde, e tento pensar que não passou de um sonho mau, reencontro o desafio de atingir
o que quero, lutar contra o que me invade,e na minha luta mostrar que consigo viver a minha Vida, que faço questão de o fazer, de seguir em frente, e conseguir viver prazer, um prazer máximo de viver tudo como se fosse a primeira e a última vez, de tirar prazer de pequenas coisas, e neste momento de procura intensa de felicidade, encontra-la nestas coisas, nestes momentos, e com isso ter sentimentos positivos, energias que me levantam e permitem viver a Vida em pleno, independentemente das cargas que carrego nas costas.

Faço-o só, faço-o junto daquele(s) que, mesmo que às vezes eu não saiba porquê, eu tenho a certeza de que quero e amo…que caminham comigo nesta estrada como se fosse a única que eu alguma vez conheci. Eu decidi-me,
o caminho faz-se caminhando, para a frente, em direcção ao destino que eu decidi…viver, em pleno, ser feliz! Paixão, esperança...sentimentos de uma força imensa, de uma natureza especial, e que para mim significam VIDA.


Temos a responsabilidade de incendiar os nossos corações e ensiná-los a amar esta nova forma de Vida e a viver em paixão, e intensamente os seus momentos.

O meu tempo é agora, e não posso perder tempo a falar de um tempo que já foi, e um tempo que tive em tempos…E se não reflectirmos um pouco sobre a nossa Vida, a paixão e entusiasmo que temos de ter, baseados numa esperança vinda de dentro, leva-nos a um sentimento generalizado de impotência e tristeza, e connosco, arrastamos os que nos rodeiam, dando espaço à doença.

A palavra de ordem para o combate é Paixão por nós, por quem somos, por aquilo que representamos, em nós e dentro de nós, por aquilo que valemos e defendemos, é paixão por saber que podemos sempre ser melhores, podemos sempre surpreender o outro e nós próprios, acreditando que esta força que nos dá energia e brota dentro de nós, nos apaixona com força suficiente para acreditar que tudo isto, este turbilhão de cores e forças, se revolta no nosso interior, e encontra expressão no gesto que fazemos ao cuidar de nós.

É o reconhecer com optimismo quem somos neste momento das nossas vidas, com tudo o que é de bom e de mau, mas sem os quais eu não seria eu, e por isso, os outros também não poderiam ser os outros. É amar em mim o que existe,e numa entrega quase louca encontrar um propósito, que me dá um caminho e me indica o que quero ser, onde quero chegar, e tudo aquilo que represento e em que acredito, recusando-me a ser menos do que isso, só porque tenho cancro…

É gostar de mim, aceitar-me, não querendo com isso estagnar, e reviver os ditos momentos de juventude já idos, em que fui isto ou aquilo, mais feliz do que agora (penso eu), e que me arrasta constantemente para um passado, não me permitindo viver o presente e assumir que, independentemente do desafio imposto pela doença, a idade que tenho agora me permite aceitar em mim, coisas que levei uma vida a combater, que me permite batalhar agora por aquelas que faz sentido mudar, mudar por mim, mudar por amor, mudar porque sim, não mudar é que não.

É encontrar um caminho, mesmo onde eu não o tinha desenhado, pois tenho e descobri de dentro, uma paixão de viver, esta vida, pois é a que tenho, e que não me vai deixar desistir. Deixemo-nos então, de não sentir, de fugir, de nos rodearmos de afazeres como formigas obreiras, que não param, e que se focam em construir algo, grande, e que não nos permite viver o positivo, a dádiva que a vida é…em si e nos relacionamentos que asseguramos.

Não deixemos que a paixão morra, não se deixem afogar em lágrimas de desânimo, momentos de incerteza, e uma mudez que não nos permite dar voz, a tudo o que brota de dentro de nós e nos diz para fazermos diferente, para sermos diferentes. Não deixemos a chama apagar-se, e dar lugar a um sentimento que nos prega, não a uma cruz de vida, mas uma desistência amarga, e com mais uma ou menos uma lágrima, vamos culpando outras entidades, por esta morte lenta do sentirvivo.

Deixamos voar a nossa vida das nossas mãos, sem controlo, entregando e confiando, não sei muito bem em quê ou quem, e se por momentos temos rasgos de lucidez, acordamos e agarramos quem amamos para um beijo,um afago, a agarrarem a Vida, e a não a deixarem ir.

Nós todos temos de acreditar, acreditar em nós, na mudança, nos outros e na energia que move este acreditar e esta mudança, fazendo nascer o potencial, do sonho, do desejo, do querer, daquilo que uma vez mais nos caracteriza. A criatividade de dar a volta por cima, o desejo de resiliência, que nos impulsiona a levantar mesmo depois de cair...desejo esse que para ocorrer, eu tenho de me sentir vivo, dono de mim, e com forças para acreditar que ainda sou capaz.

Desejos para que do nada surja algo, um novo eu, que se encontra com outros, e neles também renasce. Um eu, que quer ser diferente e arrastaratrás de si, uma multidão, uma comunidade, que quer acreditar que pode vencer por ter as ferramentas que os deixem sonhar, por sonhar junto deles baixinho, na terra da fantasia, onde todos somos iguais.

Olhar à nossa volta e sentir que há algo belo, e que viver essa beleza, intensamente, no dia-a-dia, com os que me rodeiam, me responsabiliza, me obriga a respirar essa energia, positiva, que me permite analisar e dizer neste momento posso estar feliz. E que amanhã posso repetir, e acreditar que se eu não me deixar acomodar, não resolvo todas as dificuldades e não acabo com os problemas no mundo, mas minimizo, e muito, os meus e a forma como os carrego.

Abrir os braços e respirar fundo, dando a mim mesmo momentos em que me encontro comigo sem reservas e jogos de escondidas e me prometo, a mim mesmo, me entrego a amores meus, para depois me entregar aos teus amores, com toda a força e energia, e nesse exemplo, sem palavras, dar esperança de vida a mim, não me deixando desistir, ou acomodar. Num respeito pela linha da minha Vida que carrego entre as minhas mãos nos meus actos de todos os dias, e no respeito a essa oferta, faço melhor uso dela. Claro que não estou a ignorar a doença, e todos os seus problemas, pois essa é a natureza da "besta", a Vida assim é, e está constantemente a por à prova todos os nossos conceitos e forças. No entanto, se todos os dias, eu me esforçar por não me esquecer, por me dedicar, por me querer manter vivo, e acima de tudo, aprender o que é que na realidade isso significa para mim, então, quase que de forma religiosa, como alguns cultivam o corpo, a mente, a fé, eu cultivarei esta minha vontade de estar vivo, apaixonado, e cheio de esperança.

E com todas as forças que tenha naquele dia, naquele momento, agarrar-me-ei ao que for preciso para acreditar que o amanhã pode sempre ser melhor, que eu posso sempre ser melhor, e que se eu me entregar, se eu der, se eu viver intensamente cada momento, bom e mau, não deixo que a esperança morra, não me deixo morrer de desgosto, nem da doença.


Eu consigo, eu viverei!
Para sempre...








Obrigada Vanessa e Rodrigo...que as minhas palavras façam sentido, abraço do coração...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Num caminho sem Deus...

Parte-se, numa estrada, com vontade de ir, de crescer, de se descobrir pelos caminhos, o que é isso da fé?

De se saber, porque acreditam num Deus, de nomes dependentes de quem fala...

Parte-se numa aventura que se desenha pelo caminho, onde se encontram almas, que nos desenham no coração trilhos de amizade, partilha e definições de amanhã.

A cada história, há encontros, ou desencontros, que em coincidências disfarçadas nos tricotam nuns fios de seda resistente, numa malha desconhecida. Sem ombro dado ou oferecido, num silêncio partilhado, a vida de cada um desnuda-se aos nossos olhos, seguida pela natureza que rodeia. Podem chilrear pássaros, cair gotas grossas de chuva ou orvalho, podem mil carros de passagem interromper, mas, na caminhada, a cada passo, a cada passada, larga ou curta, eu e tu, tu e o outro, nós, os outros e eu, vamos sabendo ou sentindo, que massa nos compõe, quem são e quem somos, quem amamos e quem nos ama. As histórias, aquelas, as importantes, uma a uma, desvendam-se...e unidos em ou por amor, todos, e não só, começamos a pedir...a querer que o outro, também, consiga solução, resposta, encontro, força, capacidade...

A minha lágrima passa a ser nossa...e não calculam no que se torna um caminho que para mim não levava Deus...que para mim não partia de fé, não procurava milagres, ou respostas.

Agora, aquele caminho, deu-me muita coisa, deu-me visão humilde e humana, muito pequenina, muito reduzida daquilo que o Homem é capaz e do que o Homem não é perante a VIDA, e a natureza. Reforçou-me a noção de que a fé existe, numa fogueira aberta e permanente dentro de nós e, que se alimenta a toda a hora nos milagres que afinal vivemos em todos os momentos, no Deus que encontramos no AMOR...essa sim, foi a resposta que não procurava, a fé que se descobre, na partilha de caminhadas de pés feridos, pés cheios de fé...

Que cada Homem, encontre amor, se recheie dele, que o distribua, que acredite na sua força e nos milagres que resultam da sua dádiva...que não o guarde, que não o peça ou espere, mas que acredite, não duvide, que Ele existe, em nós e nos outros e que ele sim, deve ser motivo de fé e de caminho...

Numa partida sem Deus, descobre-se, se se quiser, que ele existe, e a sua forma é amor. Amor ao outro, ao próximo, à família, aos amigos, aos companheiros, à Vida, ao Mundo...amor que está em tudo, até nos sorrisos sem retribuição, no gesto sem resposta.

Amor é força e caminho, o único caminho, sem hesitação...amei a experiência, os companheiros, as amigas e amigos que me foram dados, as paisagens, a comida, a água, a sede, as dores, as camas e o chão. As orações que ouvi, os carinhos que presenciei, as bolhas que tive e vi, as cantigas que ouvi, o colo que me deram e pediram, o rir e o brincar.

Amei, e cheguei, crente em nós, pessoas e no Amor...e este caminho faz todo e ainda mais sentido..

Amo!




Agradeço de coração ao Ricardo Coelho as fotos que me cedeu, para ilustrar este texto. Para o seguirem vejam:
RicardoSimoesCoelho (olhares.sapo.pt)

sábado, 11 de outubro de 2014

Obrigada por me amares, enquanto choro meus pecados...


No processo de fé, de entrega, de crença, na procura de respostas ou de concretizações de intenções, os peregrinos entregam a alma nos limites do corpo. Nas subidas, nas descidas, nas pedras soltas, que rolam por debaixo dos sapatos, que desenham em água trilhos de dor e sofrer, todos, sem excepção...sem que nenhum fique para trás, sem que nenhum se sinta a mais, ou diferente...todos se entregam, todos pedem, todos se dão.

No caminho encontram um limite, o seu, o do seu corpo...o da sua fé em si, mas, pela fé num alguém superior, numa entidade suprema que guia, ilumina e inspira, os limites dilatam-se, e independentemente da dor própria...e por dores alheias...os limites das suas dores desaparecem, e em plena abertura e decisão, ignora-se o corpo, os sinais ou reclamações e...vence-se a batalha, caminha-se além...até...e vence-se, ganha-se a paz.

De olhos fechados, sem saber quem somos e na certeza que queremos ser, para sempre donos de sentir, de viver em pleno...reflecte-se, rende-se, reza-se...e numa profissão de fé, num desfile de entidades, aprende-se o amor, em canções de irmandade.

Choram-se em silêncios escondidos, pecados não resolvidos, pede-se um perdão que traga a paz infinita e nos ensine o que é ser feliz.

Entregam-se...em dedicação extrema, por mim, por ti, por aquele que se atravessa no caminho.

Que seja um bom caminho!

Obrigada por me amares, enquanto choro e te dedico os meus pecados.
Perdoa no teu amor, e, leva-me/nos ao colo.

Obrigada por me amares ainda que nos meus pecados.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Fé e coragem...caminhos pela dor...

Aqui, na noite, sem o sol raiado, juntam-se pessoas, para fazer um caminho, um percurso, recheado de histórias que as fazem, que as desenham e marcam, nas rugas e expressões que denotam no rosto, e nos oferecem nos sorrisos rasgados com que nos recebem no seu caminho, num encontro com a sua fé, e fazem-nos chegar, ainda antes de partir.

É caminho de etapas, de degraus e provações, mas com apoio de mãos e gestos visíveis e invisíveis...com cada um transportando a sua bagagem, pedra a pedra, no chão ou no sapato. Um faz e faz-se. Um carrega e descarrega...um põe em causa e segue, pede ou implora...mas, caminha.

A Vida, os filhos, os pais, as mães, os doentes, os sofridos, os presentes ou, os ausentes...tudo é motivo para que numa entrega pessoal, muito própria e íntima, cada um, no seu percurso, se dedique em fé à concretização de um troço, de um pedido, de processos de alma em entrega total, em plena consciência e dedicação.

Parte-se.
De cabeça fita na chegada, e no que se vai dar e pedir de viagem.

Amor transborda e gotas de apoio chegam, pelas mãos de quem se envolve, de quem, por um aceno, um sumo, uma maçã - cuida. Ouvem-se tilintares de chegadas...notas das novas tecnologias, que através de sons disfarçados de sorrisos, põem em contacto quem de longe envia força, desejos de coragem, de bravura e espírito de entrega.

De cabeça erguida, passos dão-se...vivem-se, e num calcorrear dedicado, às vezes frenético, vitorioso, outras vezes cansado e penoso, metros se conquistam e em silêncios que se encontram, escondidos entre as costelas do respirar, solidões rebuscadas no meio de tanta companhia, ajudam a que pensamentos se vão formando, pensares que nos acompanham, nos dedicam à missão e, a fé renova-se, e, com ganas de amor ou paixão, metros se passam, quilómetros de dedicação se somam, nas solas dos sapatos que não reconhecendo o caminho, o traçam em destino.

Seja pelo que for...em grupo, mas no entanto no respeito de se estar só, cada um trabalha as consequências das suas decisões, e de olhar colocado num alguém, numa imagem de força e exemplo, numa história que quero saber, caminho eu, caminham todos...em partilha próxima, extremada, mas em gritos de individualidade.

A cada momento, bem de dentro, vão passando, em pensamentos, em sentimentos, em pedidos, as razões do caminho...é impossível não pensar, não dedicar cada batida à pessoa que se materializa na retina escondida, na cortina que se abre e nos revela, a pessoa por quem de repente queremos bem, tanto bem.

E todos, muitos...aqueles que amamos, alimentam a fogueira, com paus, troncos ou brasas...o fogo que faz estas gentes caminharem de fito na alma, e amor imenso no coração.

A água é divina, apalada-se, aproveita-se...a comida saboreia-se de água na boca, em paladares requintados, e por nenhum ser humano alguma vez experimentado...as paisagens não são belas, são obscenas, invadem-nos numa explosão de sentidos...onde cheiros e cores se intensificam, as histórias, não se contam, fazem-se e vivem-se...a chuva agradece-se...as pessoas acenam-se e numa realidade surreal, afasta-mo-nos de uma vida comum banal, para um contacto com o humano, com os seus limites, com as suas provações, agradecendo o chão que nos acolhe, onde nos deitamos e "esteiramos" o corpo cansado...acabam-se as esquisitices da cidade, da rotina, do garantido...e passa-se a a ser agradecido.

A dependência nutre-se pela independência, o eu tem espaço e no entanto, pode tão facilmente ser esmagado pelo bem maior...não chego, nem caminho só...vou só, e caminho com...

Somos irmãos, unidos pelos pés de fé...caminhando até...

 




terça-feira, 27 de maio de 2014

Esperança...chamamos-lhe isso??

Momentos de desespero, de decisões, situação de vida...sensação de nos sentirmos em mar alto, revolto, sem pé e...
...a ter de tomar uma de três decisões, nado para terra e tenho fé que terei forças e chegarei a algum lado, fico a boiar e espero por um alguém que me procure, me salve...Ou, não aguento o mêdo do sofrer que se aproxima...e, desisto sem esperança, esperando afogar-me, sem sofrer mais...

Metáfora que nos alerta para a desistência, ou para nossa capacidade de luta e resiliência. Metáfora que nos ilustra caminhos que existem sempre, se nos dermos a oportunidade de acreditar em nós, na nossa força, no caminho que se segue que devido à imposição da nossa fé, se pode desenrolar de maneiras diferentes das que anteriormente poderiam ter sido planeadas, ou desenhadas para nós.

Todos eles têm a sua quantidade de sofrimento, de dor, pois todos eles, sem excepção, implicam um esforço da nossa parte, que por vezes, pode parecer desmedido, impossível, incalculável, mas, a cada braçada que damos, a cada momento em que sentimos a gana de apostar em nós, na nossa Vida, no nosso EU, mais força ganhamos para a próxima braçada.

É difícil, às vezes quase que insuportável o sofrimento de algumas pessoas, mas, o escolher viver, "o nadar", o querer ser em pleno, na segurança de terra, no desafio do Mar, vai-nos mostrando que podemos aprender a intercalar esse sofrer, com a Vida no seu lado mais belo, na essência de ser, no silêncio da alma, que às vezes nos consome de ansiedade, ou de descrença.

Somos efémeros, somos frágeis, somos pequenos, somos um átomo no Universo, mas, SOMOS, EXISTIMOS e, quando nós sorrimos, quando de nós gostamos, quando brincamos, quando rimos, quando observamos algo belo, quando beijamos, quando amamos, quando temos amor, quando temos prazer, somos um mundo, um universo, com energia para nos fazer nadar, para nos fazer querer chegar e ter uma Vida nossa, à nossa maneira.

É uma batalha, mas nenhum momento nos deve roubar o desejo, o prazer, de sentirmos em nós, um coração a bater, um viver em cada pedacinho de nós, num momento que pode ser maravilhoso, de sabermos que tem de existir sempre um depois, que nos dá menos dor, mais alegria. Há sempre um depois, se no durante, eu não desistir.

No desespero, no mar alto, não se decide, não se desiste, não se dá opções, tira-se tudo de nós, rasga-se o peito e de face erguida, com a certeza de que se ganha, de que a conquista é nossa, vamos, sem opções.

E, no silêncio da praia, no descanso da areia, na segurança do chão, na nudez do pânico, sem gritos mudos, reflectimos, vemos o sol, o Norte e, em paz, eu encontro-me com o meu eu, que está lá dentro e sobreviveu, não desistiu, viveu. Chegou à costa. E então, roubo tempo à vida, e decido a situação que me preocupa, o mêdo, a angústia, o momento...não passa de um momento.

De coração cheio e em paz, abraçada a mim mesma, respirando toda a minha essência, faço o que acho bem, faço o que me é importante, entrego-me ao destino da minha Vida, ditado por mim, escolhido por mim.

Sou eu que decido, em força, com um olhar no  horizonte, fixo no futuro, no sabor do presente.

E, em força, dona do saber que sou eu que ganho esta batalha. Que o destino foi todo meu, que a minha força existe assim, cheia de mim, em alma e coração, mergulho de novo, para a viver.

A cada dia um novo nascer, a cada dia um novo viver.





quarta-feira, 19 de março de 2014

PAI

Ser pai...
Começo por dizer que não haveriam mães, sem pais, e não haveriam pessoas, os nós, sem pais, e que cada vez mais devemos dar tanto destaque a este dia, como ao dia da mãe. 

Por muito que as mães sejam diferentes e se assuma que o género, faz e marca diferenças acentuadas na parentalidade, ser PAI, hoje, significa muito mais do que em qualquer outro tempo significou...

Ser pai, é também parir, abrir espaço para que outra entidade parte de mim exista, primeiro no corpo de quem eu amo, na forma do que cresce, simbolizando o afecto que já não chegava ser, ou existir,  "só nos dois", depois, porque partilho ou cedo, de um todo, o meu palco, para uma nova entidade, que a partir do dia que existe, me suga numa entrega desmesurada, acautelada, medrosa, nervosa...numa entrega que me faz escorregar, dar passos certos, por caminhos desconhecidos, que desbravo com essa nova entidade. A cada dia que cresce, a cada dia que cresço eu.

Perco a minha dama, para um bem maior, e passado tempos, luto também por ter o meu lugar distinto, no coração de todos.


Dizem-me que existem papéis que esperam que eu tenha, que existem modelos a seguir, e as exigências da sociedade, desta nova sociedade, cheia de novos paradigmas, coloca-me num papel novo, numa encruzilhada entre ser o pai presente, e o homem de carreira. Ser o marido participativo, o prestador de cuidados, mas ser e sentir-me masculino. Impor a minha autoridade num jogo de cintura, que nunca sei se vai de acordo com os acordes da música que toca.


Mas, certezas tenho, cada vez há mais PAIS, participantes, com voz, com um coração e amor tão grandes como o das mães, que lutam por fazer valer o seu papel, não apenas em modelos estereotipados, mas também em modelos únicos que definem cada família, nas suas estruturas. 

Todo o pai faz falta, por nome, por origem, por raízes...mas, se tudo for saudável, todo o pai faz falta pelas suas manifestações diárias de afecto, pela carícia no rosto, pelo afago no cabelo, ao deitar na cama, pelo banho que dá, e nos sorrisos que troca com o bebé, ou com o filho, onde surge uma linguagem única que nunca mais se esquece.


Pelas manifestações de limites, imposições, e castigos, que forçam e modelam comportamentos, mas que no fim, provam que estás lá para mim pai.


Pelas verdades que me dizes, pelas doces mentiras com que me embalas, pelos braços com que me abraças e deixas sentir, que nada de mal me vai acontecer.

A dança não é só da mãe, também é tua.

Eu sou pedacinhos de ti, espalhados em mim, em todos os recantos que tenho.

Hoje, é o teu dia, dia de se poder dizer, que se tem ou teve um pai, e que se sabe o que é sentir essa presença em nós, a olhar, a zelar...no conforto do caminho, da Vida que me deste.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Elefantes no peito...

No caminho da Vida, na estrada que seguimos, vamos tendo alguns assuntos que nos incomodam, com os quais não estamos confortáveis, com os quais, lidamos de e à superfície, de passagem, numa fuga para a frente, sem resolução permanente, sem um alívio na mente.
Isto, é como se fossem dores crónicas, mentais ou sentimentais, que representam elefantes, que se vão sentando no nosso peito. Estes não estão no meio da sala, onde posso fingir que não os vejo, ou que andam por lá à solta, estes estão estacionados em cima de mim, confortavelmente à espera, que me dê a mim própria a oportunidade de os domesticar, mandar levantar, dar retirar, enxotar...qualquer coisa que os faça levantar.
Mas, às vezes eu não faço qualquer coisa, não faço NADA, e, eles agrupam-se, formam manadas, e, se eu NADA fizer, a certa altura não respiro, estou esmagada, não sou nada, porque o peso se torna incomportável.

Porque quero eu assuntos elefante? Porque os quero em cima do meu peito, se não me deixam respirar?
Por medo de ser livre?
De escolher, de arriscar nessas escolhas, de descobrir caminhos errados, no trabalho, no amor, na Vida...

Medo de me defrontar com as minhas limitações, os meus medos, que me congelam as pernas, os membros...e, me empurram para uma anestesia pela dor. A dose torna-se hábito, e suporto mais, a dose aumenta e, eu aguento.
Até que, já não respiro mais. Não vivo, sobrevivo. O peso esmaga, e de manhã, ao acordar, escondo-me de mim, não me quero levantar, luto insanamente, contra este peso, que me empurra para baixo, não me levanta, não me ergue.

Que elefantes carrego eu no meu peito?

Que peso dou eu aos assuntos que deposito fielmente, em cima de mim mesma e que me inibem de respirar, voar?

Às vezes dou por mim cheia de elefantes, assuntos que me esmagam no seu peso, porque não me debruço a resolver, a agir. Calço uns ténis e corro para a frente, como se eles não estivessem lá. Mas, estão, não me largam, e um dia, caio, esmagada, por este sentir.

Conselhos?

PARAR!

Sentir-lhes o peso, perceber se ainda respiramos, se ainda vivemos na trajectória planeada.
Questionar, se saboreamos aqueles momentos frágeis, rápidos e fugazes de felicidades, com que a Vida nos presenteia.

E, se não respiramos?
Se nos dói o peito, se nos sentimos com uma vida sem sabor, uma Vida própria engripada, com moínhas...então...
Há elefantes a mais.
Há dor a mais.
Há impotência a mais.
Há falta de confiança e fé na luz, na energia que temos em nós, no nosso amor próprio, no amor que aprendemos a desenvolver a crescer.

Então...
Analisamos elefantes, arrumamos os ditos cujos, por ordem, por gravidade, por medo, por capacidade de resolução.
Respiramos fundo, in and out, escolhemos um, e vamos...com um amor ao meu eu, com o direito à Vida, com a minha/nossa FORÇA.
VAMOS. Agarramos e falamos, gritamos ao mar, caminhamos na areia, rezamos, lavamos a cara. E, num grito de alma, agarramos nele, em peso, à bruta e, atiramos com ele.
Conquistamos a montanha, e do topo, vemos um novo horizonte, respiramos resolução.
A liberdade do agir sobre a dor do pensar, é oxigénio de alma, é renascer na nossa própria história.

É fazer uma lenda da nossa luta e como troféu temos o nosso sorriso, a nossa leveza, a alegria com que se chega a casa, com o dia conquistado, vencido por nós, na força que somos, que temos...chegamos domadores de elefantes.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Adolescência Crescida...Enleios, Labirintos, Encruzilhadas...PERDIDOS NAS ACHADAS


Para mães, pais, e filhos...naqueles espaços em que não cabe ninguém, e no desespero, pensamos todos, que não sabemos o que fazer...


"Chego a um ponto de descontrolo, de lágrimas banhada, com gritos de raiva, coexistências de amor e ódio...não sei por onde ando e onde quero estar, num desassossego doido, de nem a mim me querer.
Encontro-me dentro de mim, enleada, em soluções, ilusões e perguntas sobre um  mundo cheio de tudo e de nada, que nos oferece a cada encruzilhada, decisões que nem sempre sabemos tomar.

Na cabeça, reside um labirinto de opções.

Estou na estrada de deixar de ser criança, e passar a ser crescida, salto do colo da mãe e vivo a Vida, ou fico aqui parada na procura das respostas que os meus 16 anos não me dão...?

Vivo este amor por estas entidades que me fizeram, criaram e ensinaram, ou corto, desgarro-me para me encontrar em mim, e descobrir quem eu sou, quem é o EU que existe em mim, que não é parecido, tal e qual, sem tirar nem por, um alguém que já existe na linhagem que me antecedeu.

Quem sou, na minha pessoa inteira?
Onde estou amanhã?
Em quem acredito?
Há Deus?
Há Universo?
A minha melhor amiga é mesmo?
O que é ser pessoa?

Que valores são todos os que me ensinaram e com os quais, agora, me vejo confrontada, e não existem, ou contorcem-se nas realidades e verdades de cada um. Que não são as verdades que me ensinaram...que a verdade pode ser mentira, e a mentira, pode ser a minha verdade. Que a verdade dos adultos pode não ser a minha. Que as justiças e injustiças, minhas, dentro de mim perdidas, não se igualam ou tocam aqueles que me rodeiam.

Onde está a minha MÃE, ou PAI, as entidades perfeitas e gigantes, no cimo do trono em mim moral?

Como lido com o descobrir que são, ou que nunca passaram de ser, pessoas, daquelas, normais...mas, que amo com tal força, que consigo num rasgo de tempo, odiar com as mesmas ganas, com que amo, e morro por?

Como choro e rio, no mesmo segundo, e me encontro entre hormonas que em mim flutuam, e me fazem questionar. É tudo isto real, vivo aqui? Tenho alma, sou imortal, reencarnarei, posso ter fé...???

Fé em quem? Em mim, neles, ou num Deus que agora questiono, porque sofro só.

Mas, já me enganaram, já sofri, e neste momento, qualquer dor, a MINHA dor, é tão grande  e imensa, que me deito no colo da minha mãe e não quero crescer, quero continuar ali, em sonhos de criança...mas dentro de mim rasga-se em liberdade, esta entidade que me força a encontrar espaço em mim para acreditar que tem de haver um algo, lá à frente, num fim, que recompensa estas caminhadas.

Permito-me, abro lentamente os olhos e de colo dado, numa linha de coração, em olhares cruzados contigo, minha mãe, meu porto seguro, que me embalas, atiro-me de frente para o crescer, de peito erguido em coragem de cruzado, ocultando um pintainho cheio de frio e receio do escuro da noite.

Que preciso?
Que me dês...me dêem...

Compreensão, pois tenho medo de ir, de deixar, de seguir em frente e passar a ser, sem ti, sem vós.

De colo, porque embora crescida, me sinto pequena, frágil e desprotegida do mundo que me deram.

De silêncio, para me ouvirem dizer as minhas dores, que podem ser parvoíces, mas a mim perfuram-me e tiram-me o ar.

De espaço...para estar, existir, por quem sou, no vosso mundo, na vossa casa, mas que deixe de ser vosso, até que eu possa ter os meus...

De atenção, porque às vezes não grito, não peço, mas, preciso muito...

De amor, aquele que me dão nos olhares de orgulho, no empurrão que me manda seguir.

De paciência para crescermos juntos...hoje, o meu hoje não é o vosso, ajudem-me, não me deixem só, mas sigam o tempo no meu ritmo, pois eu não tenho as vossas ferramentas, maturidade, ou coragem...


Façam de mim crescida, no meio dos meus perdidos, façam de mim perdida, mas segura e achada dentro de mim.

Obrigada pais..."

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

VIDA


Hoje, quero falar, reflectir...escrever solto, nas linhas que se seguem, coisas que discuto com quem me procura, coisas que esquecemos no dia-a-dia, no momento que passa, naquele segundo que ainda agora olhei e vi no relógio: A Vida e a sabedoria de a viver.

Todos nós somos especialistas da nossa própria vida, cientistas que a investigam, jornalistas que a reportam, máquinas fotográficas que a registam, somos protagonistas desse palco com papel principal, mas, por vezes, senão muitas vezes, esquecemo-nos que o palco é nosso, que os espectadores esperam de nós uma peça...uma intervenção, esquecemos que subimos ao palco, e que dele temos de fazer caminho. Estagnamos, perdidos em pensamentos, em distracções, em barulhos e ruídos alheios.
Perdemos o Norte, perdemos a energia que necessitamos, porque não a poupamos, porque não a renovamos, porque basicamente na pirâmide de prioridades, esquecemos que quando olham para o nosso palco, a peça só pode ir para cena, para estreia, se eu não faltar aos meus próprios chamados.

Quem de vós se ouve, se "presta atenção", se acolhe em si mesmo, e dedica um tempo, um qualquer tempo, a viver, a fazer o que dá prazer, o que nos recarrega.

Oiço tantas vozes, a dizer, Rosa não há tempo, não pude, para a semana, hoje não dá, um destes dias, lembre-me de novo o que é para fazer, "como é que isso se faz?", o tempo corre e foge, são os miúdos sabe..., é muito trabalho...

Eram, são infinitas as desculpas, a nós mesmos, é o ruído de fundo que permitimos que exista, para que tal e qual o mágico, o ilusionista, com esse ruído, não prestemos atenção aos gritos que me dizem: vive, vai ver o mar, ouve música, canta em voz alta, chora, lê, passeia, vai ao cabeleireiro, dá uma volta, lê uma revista, come em pratos de plástico e não laves loiça, foge por 10 minutos, desliga o telemóvel, desliga a TV, não vás às compras, ou, vai às compras, sonha acordado, vai a uma massagem, deixa cair batalhas desnecessárias....
Não ouvimos, mas ela, a Vida é implacável, apanha-nos a cada esquina de relógio em punho, que nos esfrega na cara, e nos relembra das finitudes de tudo e todos os que nos rodeiam. Mas, onde está a sapiência adquirida, que desta vida vivida, me devia ensinar, empurrar, abanar, para que em cada um dos meus dias, para que a cada um destes intervalos temporais de que me componho, me tirasse da inércia, e com ou sem atrito, me empurrasse para fazer por mim, para aprender a viver um momento, a construir a felicidade em somatório de eventos e não como o santo Graal que por mim aguarda num algures, escondido, com um mapa que me é inacessível.


Quantas lutas se travam reais???

Há quanto tempo não se vive, não vive, não se cuida?

Por favor, não me responda amanhã...arranque, todos os dias, um pouco, um pouquinho, que no fim será tanto.