
Em todas as famílias há pelo menos sempre um elemento que é uma peça diferente, aquele, que em todos os momentos, está sempre atento ou até mesmo à procura do que o outro gosta, quer, e precisa. São os elementos que parecem constantemente estar atentos a diversas formas de mostrar o amor. Em entregas que às vezes aos olhos dos outros membros da família, não deixam de ser gestos invisíveis.
Aquele gesto de se estar a conduzir a caminho de um compromisso pessoal qualquer, e o filho ou filha ligam, porque precisam que se vá à escola levar um trabalho que se esqueceram, e nós vamos. Estamos nas compras e decidimos o menu do jantar em favor das preferências de um dos elementos da família. Vemos uma promoção qualquer, que interessa a um dos nossos muitos amores e aproveitamos, deixando de comprar aquela outra coisa que queríamos muito para nós, pois o dinheiro não chega. Chegamos a casa, e perdemos 10 minutos a dar o nosso jeitinho à casa, que faz com que o ninho tenha sempre um ar organizado e limpo. Transformamos as refeições do dia, em mimos em forma de comida, escolhas cozinhadas às vezes com lágrimas e amor. Estes seres que pertencem à família fazem-no, na realidade sem esperar uma troca, uma paga, quer fosse em moeda igual, quer fosse numa nova moeda. Não à espera de retribuição real, porque para estes elementos este fenómeno é natural, e quase que impossível de ser travado, acontece naturalmente, numa reação de amor, às observações do quotidiano.


O problema, é que muitas vezes estas pessoas, estão dadas como garantidas aos seus, e estes por vezes estes, no seu vórtex pessoal, esquecem-se de agradecer, ou de pelo menos reconhecer, e com esta ausência de reinvestimento, no banco, o crash acontece, e o resultado mais grave é que temporariamente este elemento familiar, sente-se como que destroçado, vazio, e a questionar-se porque é que faz o que faz...Pensa em mudar, zanga-se essencialmente consigo mesmo, pois sabe perfeitamente que fez tudo de vontade própria, sem pedidos, e isso, faz com que se sinta ainda mais culpado por sentir esta necessidade desesperada de receber de volta. Faço porque quero, não espero nada, mas em desespero, espero sempre um amor de entrega.

No fim destas lutas internas, por norma esta pessoa continua a ser como é, ganha energias em si mesma, ou nuns outros com quem também partilha a Vida, e por vezes sem saber, dão de volta, em pequenos gestos, mas tudo isto não impede que uma certa zanga para com o outro, seja este o companheiro ou filho se instale, e depois, demora um certo tempo até que o equilíbrio interno permita que a entrega continue, e que este papel de agrado ao outro e de emissão de cheques sem balanço se perpetue... E isto é possível, porque a pessoa, dentro de si encontra as verdadeiras razões para estas entregas, e para as energias que se geram destes pensamentos, destas emoções se acumulem, e criem condições que a motivam para este percurso.

Temos de descobrir, de forma pessoal, e não dependente dos outros, onde encontrar pequenos investimentos, que ao serem depositados neste nosso banco, nos valorizem de tal modo, que nos permite as energias possíveis e necessárias, para que estas entregas continuem, no entanto cabe-nos a nós também educar, educar no amor...educar a quem nos entregamos destas formas, para que estes percebam que estas entregas por vezes codificadas, têm um simbolismo, carregam, doses infindáveis de afeto e carinho, e são demonstrações dá nossa entrega.
Ensinar o outro a participar de forma natural, entendendo que por momentos, precisamos da entrega deles, da sua própria maneira, nos seus próprios momentos e espaços, mas que precisamos, e que sem ela, nos é muito difícil continuar nesta dádiva vazia. Às vezes precisamos tanto que até temos ciúme de coisas ridículas...há muitos anos atrás, lembro-me de ter ciúme do tempo em que o meu "não marido ainda" , tocava guitarra, pois pareciam ser tempos em que ele não estava comigo, ainda que estivéssemos ali, lado a lado, durante os seus concertos individuais; não percebi o simbolismo, a entrega e a coragem de se revelar em frente a mim, a fã que ele ao fim ao cabo mais receava...travei uma luta, a pedir, que ele parasse para estar comigo, para que se entregasse mais (dizia/pensava eu), com o tempo eu ganhei, ele dedicou-se muito a mim, hoje sou eu que às vezes lhe peço, ou o lembro, para que toque guitarra, para que esse seu amor não morra, mas hoje é raro, e eu arrependo-me, hoje nesse campo sofremos os dois...eu acho que ele sofre, pois perdeu a vontade de o fazer de forma espontânea como fazia, e deixou de ter na guitarra um hobby, um escape, mas vive um certo saudosismo por isso; eu, porque me sinto responsável, porque hoje sei, que na vida há tempo para tudo, e na altura a minha imaturidade me impediu de aceitar os seus símbolos de amor, através de algo que era dele, e especial para ele.
Amar é dar, é receber, é esperar, mas acima de tudo é aprender com o outro, é aprender a viver e conhecer tudo o que o outro nos dá, é aprender a pedir as retribuições, ainda que apenas queiramos "trocados", no entanto, sempre com o cuidado de não estarmos a exigir ao outro, que este se dilua, nos nossos sonhos e expectativas.
Amar é criar um espaço para os dois, um espaço para cada um, e um espaço, onde podem existir os outros, e nenhum pode desaparecer, nenhum pode sofrer, ficando sem lugar para si próprio. E nestes espaços, têm de existir tempos, da mesma maneira, o meu tempo, o teu tempo, o nosso tempo...e se existirem criaturas pequenitas ou granditas, o tempo deles e com eles também.

Como diria Florbela Espanca...
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
"Amar é criar um espaço para os dois, um espaço para cada um, e um espaço, onde podem existir os outros, e nenhum pode desaparecer, nenhum pode sofrer, ficando sem lugar para si próprio" - Rosa Amaral
ResponderEliminarNada mais a dizer ; ) Parabéns. Belo Post.
Obrigada pelas palavras de apoio...contam muito, as minhas palavras de nada valem, se não forem lidas e sentidas por alguém.
ResponderEliminare como eu te percebo ...
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