
Portas do quarto...entradas para espaços íntimos carregados de emoções e muitas vezes de uma tensão presente ou sentida, falada ou muda, entradas para espaços de resolução, ou não, às vezes são entradas para o vazio, para sensações de perda, falemos sobre isto e sobre o amor, e como podemos fazer com que estas portas de entrada, não se fechem, não nos entalem ou batam na cara. Falemos de afectos e da importância de os saber gerir, muitas das vezes fora destes espaços. Falemos de entrega e de como estas tensões podem ser aliviadas...Falemos...
O quarto, o que é? O que é para cada um de nós?
Que memórias nos trás? Que sentimentos em nós evoca?
Que fantasias temos do quarto de antes, daquele que nos acolhia em solteiros, em crianças, na individualidade que éramos, como que se pudesse tratar de uma protecção, numa fantasia, num espaço de acolhimento para onde nos recolhíamos talvez...Onde nada nos tocava, onde o espaço era nosso, e para lá podíamos fugir, ser e estar.
Que fantasias dessas transportamos nós para a vida de família...é um espaço que considero meu e que é invadido pelo outro, ou partilho, sem receios...é um espaço intimo, mas onde deixo entrar os meus filhos, e às vezes também é um acampamento social, recheado de ingenuidade, e não sexualidade. Ou é um espaço que fecho, que não consigo deixar aberto...
É um espaço que quero perfeito, ou é uma reflexão das personalidades que o habitam, é o espaço onde acho que mando, ou mandamos os dois...tantas questões se levantam e todas elas importantes, pois, é nessas questões que residem muitas das vezes os inícios dos conflitos, das complicações que nos afastam, nos perturbam.

Imagens que nos invadem a mente e nos fazem desejar coisas pouco realistas, ou difíceis de manter pelo tempo, fazem-nos viver o dia-a-dia na busca de algo que não existe dentro destas portas, e não existe muitas vezes em lado nenhum, se não nos dedicarmos a manter a relação que nos une, e nos leva para dentro deste espaço, viva, energética, dedicada, e sempre renovada.

Neste espaço, precisamos de ter uma porta aberta, uma mente aberta, precisamos de deixar de fora o que não nos é útil, levar o que está bem, discutir o que não está no seu melhor, mas sempre com a ideia de que estes são os passos necessários e essenciais para fazer a relação crescer, para que nenhum se sinta negligenciado, para que nenhum sinta que o outro não o reconhece, não se lhe dedica, não se entrega, e silêncios de tensão antecedem o que acontece, ou não, pois as vontades podem não estar lá.

Dói muito, ao outro, e a nós, estas sensações de distância, de zanga. É necessário entender que muitas das vezes estes espaços, por muito necessários que sejam, pois as relações precisam destas "correntes de ar", não podem perdurar no tempo, e devemos, ambos os lados, dar passos para esquecer, para nos aproximar, para saber pedir e receber.
Às vezes temos de fechar as portas do quarto e deixar no seu exterior o que não nos serve, criando espaços íntimos que nos permitam, dar, receber, chorar, gritar e seguir em frente, outras vezes temos de as abrir para, acender a chama, para deixar sair, para varrer para fora o que está a mais, e quando tudo se equilibra e estamos todos bem, podemos deixar as portas entre-abertas, para convidar a família a estar próxima, e para nos lembrar que este espaço é nosso, é aberto, é privado, é deles, é o coração da nossa casa...portas do quarto...entradas para um mundo que têm obrigação de velar e mimar...
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